Vou deixar aqui o assento de baptismo do nosso senhorio, depois voltarei para vos contar a história!
Ora, cá estou eu de volta para completar a minha publicação, tal como prometido. Tenho quase a certeza que ninguém a virá a ler, mas isso não me dá dor de cabeça, isto é mais para guardar nas minhas memórias. Há quem as não tenha, mas eu sim e quero preservá-las.
Cada vez fico mais convencido que a casa onde eu nasci era herança do meu avô Jerónimo, patrono que uma grande família de Macieira. O pai dele veio de Gueral e já o avô era de Negreiros, mas o Jerónimo nasceu no lugar do Outeiro da freguesia de Macieira. A sua mulher era da Casa dos Velhos e nas futuras gerações, a que eu também pertenço, Velhos e Jerónimos foram-se misturando, casando uns com os outros, e formando uma das maiores famílias da nossa freguesia.
O António que casou com a Tia Amélia do Jerónimo era bisneto do avô Jerónimo e, quando se casou, ficou a morar na mesma casa onde eu nasci. E ficou a morar nessa casa, porque ela pertencia à família, com certeza do lado do pai, pois a mãe veio de Rio Covo do concelho de Barcelos. Pode ser ou não verdade, mas é nisso que eu acredito.
No segundo quartel do Século XX, essa casa foi comprada pela família Loureiro de Gueral. A falta de dinheiro numa família tão grande, como foi a da Tia Rosa Velha, deve ter obrigado à venda e a família do Tio Zé do Loureiro, pai do Laurindo, cujo assento de baptismo se pode ler aqui abaixo que tinha dinheiro para investir na propriedade agrícola foi a compradora. O campo anexo à casa e o campo de cima davam bom vinho e milho, num tempo em que a riqueza das famílias se media em pipas de vinho e carros de pão.
Ficou assim a Tia Amélia e o seu marido (do Jerónimo) a viver numa casa que não era sua e pela qual tinham que pagar renda. Para piorar as coisas, o marido da Tia Amélia decidiu ir tentar a sua sorte no Brasil e de lá nunca mais voltou. O Loureiro preferia ter a casa vazia e propôs um negócio à Tia Amélia, oferecia-lhe uma parcela de terreno, com 300 ou 400 metros quadrados, parte de uma bouça, ali perto, que lhe pertencia, onde poderia construir uma casinha para a sua família, na condição de ela abandonar aquela casa.
E assim aconteceu, a casinha foi feita e a filharada da Tia Amélia mudou-se para lá de armas e bagagens deixando vazia a casa que deixara de ser do Jerónimo e passara a ser do Loureiro de Gueral. Vivia-se, então, a década de 30 do século passado, a mesma em que o meu pai se casou (no mês de Julho de 1939) e se viu perante a dificuldade de arranjar uma casa, em que pudesse abrigar a sua mulher e sogra que viviam juntas, desde sempre, uma vez que a minha mãe era filha de mãe solteira.
Tendo ele sido empregado da Casa do Loureiro, desde que se viu obrigado a abandonar a escola, aos 8 anos de idade, por morte do seu pai, lembrou-se de ir pedir, de chapéu na mão, como era seu hábito, ao seu antigo patrão para lhe arrendar a casa que estava vazia, depois da saída da Tia Amélia. O seu antigo patrão recebeu-o bem e disse-lhe que a casa estava em muito mau estado e que chovia lá dentro como na rua. Não seja esse o problema, respondeu-lhe o meu pai, eu tomo a responsabilidade de arranjar os telhados se me fizer o favor de arrendar a casa.
E foi assim que aconteceu, o Tio Zé do Loureiro, filho do Tio António Loureiro de quem herdou o apelido. arrendou ao meu pai a casa que preferia ter vazia, como quem faz um favor a um pobre. Ficas a pagar-me 40 mil reis por mês e tens direito a usar a horta do poço e a da porta também, isso será suficiente para semeares uma ou duas arrobas de batatas e plantares umas couves para alimentar a família. O resto dos terrenos e todas as ramadas de vinho são minhas e delas não poderás fazer nenhum uso, estamos entendidos?
Claro que estavam entendidos e o meu pai regressou a Macieira contente como um passarinho. Sabia que teria que trabalhar 3 dias por mês para pagar aquela renda, mas isso não lhe metia medo. Foi ter com a minha mãe que morava numa casinha, no Largo do Formigal, que era pertença das «Velhas do Rio do Souto» e disse-lhe: - Já podemos casar, pois já arranjei casa onde morarmos.
E assim a casa que já fora da família do Jerónimo voltou a abrigar uma descendente desse velho patrono, nascido em Macieira, filho de um homem que veio de Gueral e neto de outro que era de Negreiros e de uma conceituada família, a dos Álvares de quem descendia também a Maria Álvares com quem o Jerónimo de viria a casar, nos finais do século XVIII.


















