2025-02-10

 


Ver o mundo através do Google Earth é o que me resta, quando as pernas já não dão conta do recado e me deixam aqui sozinho isolado do mundo e do que por lá se passa. Ao ver o mapa acima recordei uma história que o meu pai contava com frequência. Ele odiava defuntos e deve ter sido por essa razão que a coisa lhe ficou gravada na memória e passados muitos anos, pelo menos aí uns 60, me contou o acontecido.


Nesse tempo, década de 20 ou 30 do século passado, não havia ruas pavimentadas, como agora existem e se vêem na imagem. A viagem fez-se por caminhos e carreiros, descendo do ponto mais alto de Chavão para o mais baixo de Chorente. O morto andava aos trambolhões, dentro do esquife, e batia com a cabeça na madeira sempre que um dos carregadores escorregava e fazia balançar a carga. O caminho é mau que eu bem sei, por isso há tão poucas ligações entre as duas freguesias, sendo o conhecido Monte de Chavão o obstáculo natural que a isso leva.


À altura morava ele em Chorente, no lugar da Idanha, e tendo falecido em Chavão uma pessoa de Chorente havia que trazê-la até ali para realizar o funeral. Ainda não havia, como há hoje, carros funerários para fazer o serviço e, por conseguinte teria que usar-se outro transporte para o féretro. O meu pai e um grupo de familiares e vizinhos do falecido prontificaram-se a trazer o caixão às costas até à igreja de Chorente, onde o pároco encomendaria a alma do dito, antes de o levarem a enterrar no cemitério.



Passei a minha infância neste recanto do mundo, Courel, Macieira, Negreiros Chorente e Gueral formavam um círculo à volta do lugar onde nasci, lugar do Outeiro, e não havia caminho nem carreiro que eu não conhecesse ou calcorreasse nas idas e vindas de um lado para o outro.

Chavão ficava fora desse âmbito, da estrada que liga Negreiros a Chorente e depois segue em direcção às Carvalhas, nunca passei para o lado nascente, talvez por causa da ausência de moradores no já referido Monte de Chavão. Um dos meus caminhos, frequentemente usado para de Macieira chegar ao lugar da Torre, passava pela Gandarinha, depois pela azenha do Tio Avelino Mariano, daí até à Baralha, seguindo depois por uns carreiros até atingir a estrada de Negreiros.

Hoje, parece estranho falar nisto, pois ninguém dá um passo que não seja de automóvel ou outro meio mecanizado, até as bicicletas já foram postas de parte, pois era preciso pedalar a sério para elas se moverem nquela espécie de terreno. Lugar de Vinhós e depois Torre era onde eu ia entregar a obra de costura que as senhoras daquela zona encomendavam à minha mãe que as vestia a todas.

Outros tempos, outras gentes cujos ossos já repousam nos cemitérios, depois de uma vida de canseiras neste mundo de Deus!

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Ana Canana!