2024-02-21

Vizinhos e amigos de brincadeira!

 


A Geografia é coisa que se aprende na escola. Essa ciência tem a maior influência na nossa vida, muito embora a gente nunca pare para pensar nisso. Pensem só na diferença que pode significar para quem vive à beira-mar ou no interior, a centenas de kilómetros do mar. Há gente que nasce e morre sem nunca ter visto as ondas a bater no paredão. Mas há muitas outras diferenças, como nascer no Ártico ou nos trópicos, entre negros do Ruanda ou índios do Amazonas.

Mas aquilo de que vos vou falar é mais relativo, trata.se apenas de ter nascido no Lugar do Outeiro, a parte da nossa freguesia com maior altitude, e apanhar pelo caminho, até chegar ao adro da igreja, alguns colegas de turma que moram no Outeiro, além do Amaro do Matos que vinha da Gandarinha. A ele se juntavam o Serafim Farinheiro e o Quim Pimpa que comigo e o Quim do Salvador perfazia um grupo de 5 amigos que nunca andavam muito longe uns dos outros.

Parece que não, mas fazer o caminho de ida e volta para a escola, durante 4 anos, cria laços que se mantêm para a vida. O Quim do Salvador, por ser filho de lavradores, era o que menos participava nas nossas brincadeiras, durante a tarde, tinha que ir para o campo ajudar nas tarefas que requeriam a participação de todos. Nós, os outros 4 também tínhamos algumas tarefas distribuidas pelos pais, mas era coisa de pouca monta e, por vezes, juntávamo-nos para as levar a cabo em conjunto.

Por exemplo, o Amaro e eu tínhamos que arranjar lenha, caruma (em macieira dizia-se pruma) ou fetos e íamos juntos, uma vez para os Eiteirais, outra vez para os lados da azenha e Bouça do Adro. O que era preciso era fazer o dever o mais rápido possível para sobrar tempo para a brincadeira. E se regressássemos de mãos vazias, inventar uma boa história para contar ao pai ou à mãe que nos tinha dado o encargo.

O Quim Pimpa tinha que ir com a burra pelos caminhos, de modo a ela encher a pança por fora, pois em casa pouco havia que comer. O Serafim e eu juntávamo-nos a ele, às vezes, para tentar dar umas voltinhas no lombo do animal que nem dava por nós de tão levezinhos que éramos.

Algumas vezes, à falta de melhor entretimento, acompanhava o Quim do Salvador para os campos. Umas vezes para o campo dos Eiteirais que ficava no caminho que vai para Courel, antes de chegar aos terrenos que já pertenciam à freguesia de Gueral. Outras vezes para o Campo da Agra que ficava ao lado do da Tia Rosa, a que ela chamava, o Campo da Fonte. Porque a entrada para esse campo era junto à famosa e muitas vezes mencionada por mim nos meus escritos, Fonte do Outeiro. E por último, para o Campo da Mulher Morta que era o que mais longe ficava das nossas casas, quase a chegar a Rates.

Hoje, pensando nessa época da minha vida, reparo que só Quim do Salvador e eu próprio escapámos à viagem final que o destino nos oferece, sem qualquer custo, quando o nosso ciclo de vida na Terra chega ao fim. E bem vistas as coisas, cumpriu-se a ordem natural, pois eles três eram os mais velhos. O Amaro e o Quim Pimpa eram primos e, salvo erro, nascidos em 1942. O Serafim era de Outubro de 1943 e faleceu no Lobito, Angola, há pouco tempo. Depois venho eu, de Março de 44 e o Quim do Salvador, de Julho do mesmo ano. Isso quer dizer que sou o próximo na lista de prioridades e o Quim ficará sozinho à espera da vez dele. Mas nem sempre acontece assim, às vezes os últimos são os primeiros.

E pronto, foi o que me apeteceu publicar hoje. Não é, propriamente, sobre a minha ascendência, mas sobre os tempos antigos, na freguesia onde nasci e de onde abalei - como dizem os alentejanos - aos 11 anos de idade para ir estudar, em Coimbra. Depois disso, só voltei a Macieira por curtos períodos. A primeira vez, por 5 meses, antes de ingressar no Colégio de D. Nuno, na Póvoa, e a segunda vez, por 3 meses, depois de abandonar esse mesmo colégio. Em Outubro de 1960, ainda com 16 anos de idade, disse adeus a Macieira, quando a família se mudou para Argivai.

2024-02-11

Os primos e a Tia Rosa!

A avó Maria e a Tia Rosa do Mico, a nossa vizinha mais próxima, diziam-se primas. Só agora, depois e esbulhar os Registos Paroquiais, é que eu descobri de onde vinha essa relação. Afinal, elas eram de gerações diferentes, portanto primas em segundo grau, porque a prima direita da Tia Rosa era a bisavó Eusébia. A Tia Rosa, o seu irmão David e a Tia Diamantina de Rates eram filhos de um irmão da avó Eusébia que se tinha casado com a Tia Rosa velha que emigrou de Rio Covo - Santa Eugénia para Macieira.

A Tia Amélia - dita do Jerónimo - era cunhada da Rosa e do David, porque o seu marido também era da família do Jerónimo e irmão do pai daqueles dois. Não tenho a certeza, mas será fácil de verificar, o marido da Amélia era o António e o pai da Tia Rosa era o José, ambos irmãos da nossa bisa Eusébia. É muito complicado? Deixem para lá, somos todos primos, em maior ou menor grau, e o resto pouco interessa.

A parte da história que me fez arregalar os olhos de espanto, foi descobrir que a nossa avó Maria foi arranjar um namorado a Rio Covo - Santa Eulália, enquanto a Tia Rosa era oriunda da vizinha aldeia de Rio Covo - Santa Eugénia e acabaram a morar, uma em frente da outra, no Lugar do Outeiro. Como se costuma dizer, este mundo é muito pequeno!

E eu, o primo mais afastado de toda esta gente, era, amiúde, requisitado pela Tia Rosa para lhe ir tomar conta das ovelhas, no campo da fonte, ou nos codessos (hei-de ir ao dicionário pesquisar o significado desta palavra) que subiam até ao muro da Quinta do Arteiro (outra personagem de quem não consegui ainda encontrar o rasto).

A minha vingança por ser forçado a essa tarefa que detestava, foi ensinar o carneirinho, nascido há pouco, a marrar como um bode velho. Ainda os cornos não lhe tinham despontado na cabeça e já ele ia com um bom número de lições recebidas deste que vos relata a história. Turra, mico, dizia-lhe eu, pondo a minha mão direita espalmada em frente do seu focinho. E ele, lentamente, começou a aprender que aquilo era para ele marrar e começou a fazê-lo cada vez com mais vontade.

Entretanto, fiz o exame da 4ª Classe, gozei as férias de verão, desse ano de 1955, e depois emigrei para Cernache, onde fui estudar no colégio dos Jesuítas, recém-inaugurado. A Tia Rosa ficou esquecida, lá para trás no tempo, mas uma carta, recebida dos meus pais, veio contar-me que o Mico, assim ficou conhecido para sempre, tinha crescido, ganhado corpo, e um dia, apanhando a Tia Rosa de costas, afinfou-lhe uma marrada que a atirou pelo ar. Coitada da velhota, olha o que eu lhe havia de ter arranjado!

2024-02-02

O Lugar da Ribeira!


Na freguesia de Gueral, já quase nos limites de Chorente, existe um lugar a que deram o nome de Ribeira. Ainda pensei que fosse por causa do rio de Macieira, a que alguns designam por «Ribeira de Macieira», mas depressa percebi o meu erro, pois esse rio entra em Gueral vindo de Chorente, a nascente,  e nunca passa perto do lugar da Ribeira. O mais certo é ser por causa de uma outra ribeira que vem do norte, atravessa a estrada Gueral/Chorente e segue para sul, em direcção ao rio Codade, o tal a que também chamam ribeira de Macieira.

Bem, isso pouco interesse tem para aquilo que aqui vos vim contar. Vamos ao que interessa. No lugar da Ribeira, ou melhor dizendo, na casa dos da Ribeira morava alguém que era cliente da Tia Rita costureira, por coincidência minha mãe. E quando havia obra feita para lá ir entregar, calhava-me a mim esse frete. Nos princípios da minha vida como entregador de roupa pronta e passada a ferro, eu servia unicamente de companhia à minha irmã Alice, para lhe tirar o medo, como dizia a minha mãe, porque era ela, de facto, a portadora da encomenda.

Era longe para as nossas curtas pernas! Íamos de Macieira até ao pé da capela de Santo Amaro, mergulhávamos pela rampa abaixo, até ao lugar da Fonte e depois seguíamos, por caminhos e carreiros, até ao lugar da Aldeia para fazer a entrega.

Tudo isto tem a ver com um senhor de apelido Ferreira que vindo de Chorente, foi ali casar com uma senhora de apelido Gonçalves que por obra do destino viria a fazer parte de uma grande família que, em meados do século XVIII, começou a formar-se, em Macieira, no lugar do Outeiro. No início foi um filho da Casa da Ribeira, chamado Manuel, que se casou com uma rapariga da Casa do Velho, de Macieira, e desse casal resultou o avô Jerónimo de quem já aqui falei mil vezes.

Do Jerónimo nasceu o José, do José nasceu o Joaquim, do Joaquim nasceu a Eusébia que deu vida à minha avó Maria e desta nasceu a famosa Rita, costureira do lugar do Outeiro que tinha clientes em Gueral, em Courel, em Chorente e, claro está, em Macieira e era a minha mãe.

Pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós, tantos anos depois quem poderia adivinhar que a Tia Rita ia acabar a costurar para a família de quem provinha! Se eles soubessem disto ainda poderiam pedir um descontozinho no preço da obra feita por medida, coisa que viria prejudicar o negócio da minha mãe que mal ganhava para nos matar a fome.

A alcunha de «Velho» provém da família dos Araújo, a que pertencia a mãe do avô Jerónimo e por essa razão nós, a minha avá, a minha mãe e eu. somos tanto da família do Jerónimo, pelo lado paterno, como da família do Velho, pelo lado materno. Cada um que escolha o que mais lhe convier.

Os apelidos de Ferreira e Alvares (depois Alves) perderam-se pelo caminho e prevaleceu o apelido Sousa que a mulher do avô José trouxe de Balazar e se manteve no tempo, para filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, geração a que pertenço eu.

E assim está contado mais um capítulo das minhas memórias para quem quiser ler e entender o passado!

Ana Canana!