Na freguesia de Gueral, já quase nos limites de Chorente, existe um lugar a que deram o nome de Ribeira. Ainda pensei que fosse por causa do rio de Macieira, a que alguns designam por «Ribeira de Macieira», mas depressa percebi o meu erro, pois esse rio entra em Gueral vindo de Chorente, a nascente, e nunca passa perto do lugar da Ribeira. O mais certo é ser por causa de uma outra ribeira que vem do norte, atravessa a estrada Gueral/Chorente e segue para sul, em direcção ao rio Codade, o tal a que também chamam ribeira de Macieira.
Bem, isso pouco interesse tem para aquilo que aqui vos vim contar. Vamos ao que interessa. No lugar da Ribeira, ou melhor dizendo, na casa dos da Ribeira morava alguém que era cliente da Tia Rita costureira, por coincidência minha mãe. E quando havia obra feita para lá ir entregar, calhava-me a mim esse frete. Nos princípios da minha vida como entregador de roupa pronta e passada a ferro, eu servia unicamente de companhia à minha irmã Alice, para lhe tirar o medo, como dizia a minha mãe, porque era ela, de facto, a portadora da encomenda.
Era longe para as nossas curtas pernas! Íamos de Macieira até ao pé da capela de Santo Amaro, mergulhávamos pela rampa abaixo, até ao lugar da Fonte e depois seguíamos, por caminhos e carreiros, até ao lugar da Aldeia para fazer a entrega.
Tudo isto tem a ver com um senhor de apelido Ferreira que vindo de Chorente, foi ali casar com uma senhora de apelido Gonçalves que por obra do destino viria a fazer parte de uma grande família que, em meados do século XVIII, começou a formar-se, em Macieira, no lugar do Outeiro. No início foi um filho da Casa da Ribeira, chamado Manuel, que se casou com uma rapariga da Casa do Velho, de Macieira, e desse casal resultou o avô Jerónimo de quem já aqui falei mil vezes.
Do Jerónimo nasceu o José, do José nasceu o Joaquim, do Joaquim nasceu a Eusébia que deu vida à minha avó Maria e desta nasceu a famosa Rita, costureira do lugar do Outeiro que tinha clientes em Gueral, em Courel, em Chorente e, claro está, em Macieira e era a minha mãe.
Pais, avós, bisavós, trisavós, tetravós, tantos anos depois quem poderia adivinhar que a Tia Rita ia acabar a costurar para a família de quem provinha! Se eles soubessem disto ainda poderiam pedir um descontozinho no preço da obra feita por medida, coisa que viria prejudicar o negócio da minha mãe que mal ganhava para nos matar a fome.
A alcunha de «Velho» provém da família dos Araújo, a que pertencia a mãe do avô Jerónimo e por essa razão nós, a minha avá, a minha mãe e eu. somos tanto da família do Jerónimo, pelo lado paterno, como da família do Velho, pelo lado materno. Cada um que escolha o que mais lhe convier.
Os apelidos de Ferreira e Alvares (depois Alves) perderam-se pelo caminho e prevaleceu o apelido Sousa que a mulher do avô José trouxe de Balazar e se manteve no tempo, para filhos, netos, bisnetos, trinetos e tetranetos, geração a que pertenço eu.
E assim está contado mais um capítulo das minhas memórias para quem quiser ler e entender o passado!

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