2024-11-23

Coincidências!

A Quinta do Passeia
O lugar de Real de Cima
A Tia Clemência dos trapos
A Bisavó Eusébia e o padre que lhe baptisou o filho.

Nos meus primeiros anos de vida, acompanhei a minha mãe em várias deslocações que ela ela obrigada a fazer, por razões que agora pouco interessam. Uma mulher sozinha a deambular por caminhos pouco frequentados podia ser uma tentação para qualquer mânfio que andasse por ali "à pesca". A presença de uma potencial testemunha fazia-lhe passar a vontade de incomodar a passante.

Numa dessas deslocações fomos ao lugar de Real de Cima, a casa da Tia Clemência, uma senhora que negociava em "trapos" que a minha mãe usava para confeccionar tudo e mais alguma coisa que depois vendia às suas clientes, ou na feia de Barcelos. Eram retalhos de chita de que fazia blusas e aventais, além de outras coisas mais miúdas. E também retalhos de panos brancos de diversos tipos que davam para tudo e mais alguma coisa, até para cuecas de homem ou senhora, pois nesse tempo ainda não existiam fábricas de malha a fazerem aquilo que hoje se usa.

Outra vez fui com o Armando da Tia Amélia à Quinta do Passeia, de que o seu filho Daniel era o feitor, buscar uma série de tralhas que sobravam num lado e faltavam no outro. Fomos num carro de bois - que no caso era puxado por duas pobres vaquinhas que depois de ir ao lugar de Real de Cima e voltar ficavam com a língua de fora - que não faço ideia a quem pertencia, pois a Tia Amélia não tinha gado nem sequer um carro a que pudesse atrelar uma junta de vacas.

Ao fazer este relato, lembro-me que nas minhas andanças por casa dos lavradores aprendi o nome dessas coisas todas e de como se preparava uma junta de bois (ou vacas) para atrelar ao carro. Aprendi, além disso, os nomes das partes do carro, a começar no rodado, depois a cabeçalha, o pigarro e a chavelha, sem esquecer as caniças, os fueiros e todo o resto. Aprendi a pôr o jugo, depois dos arcos, e travá-lo com as partizelas para que se segurassem no pescoço dos animais. E depois, fazer as vacas andar de marcha-atrás, até a cabeçalha do carro entrar no suporte do jugo.

Quando li, no assento de baptismo do nosso tio-avô Carlos que a sua mãe morava no lugar de Real de Cima, da freguesia de Pedra Furada, quando ele nascera, tudo isto me veio à mente e sempre tive intenção de o escrever para ficar registado para "quem atrás vier". Pois, chegou hoje o dia de o fazer. Uma outra coisa que me chamou a atenção nesse registo, foi o nome do pároco e do padrinho

Um pensamento atravessou a minha mente, tal como uma estrela cadente a rasgar o céu numa noite escura. Luiz Alves de Sousa era o irmão mais novo da mãe da criança e o pároco, pelo nome que tinha, só podia ser da família também. Lembro aqui que a bisavó da criança ali baptisada se chamava Maria Alvares da Silva, apelido que foi de Pedra Furada para Góios, ou vice-versa, passando depois para Macieira, lá ficando até que eu nasci.

Chegado a este ponto, dei-me ao trabalho de consultar os livros dos Registos Paroquiais para descobrir de quando e até quando esteve o Padre António Alvares da Silva à frente dos destinos da freguesia. Acima, podem ver o primeiro assento de baptismo assinado por ele, em Pedra Furada. Nessa altura assinava ainda como Presbítero (que é uma espécie de estagiário), provavelmente o seu primeiro emprego, depois de cantar missa.

E neste outro, o seu último, o adeus à freguesia que paroquiou por longos 54 anos. Nessa altura, já o Carlos, filho da Eusébia, tinha 11 anos e morava na Lagoa Negra, juntamente com a sua mãe que se casara, um ano antes. Além do seu padrinho, o Tio Luiz, que foi o primeiro a ir para a Lagoa Negra, tendo lá casado e depois desencaminhando a sua irmã para fazer o mesmo com um seu vizinho que tinha enviuvado, havia pouco tempo.

Alguma coisa motivara a minha bisavó Eusébia a refugiar-se naquele lugar. Ou ligações familiares com o pároco ou a ligação a uma propriedade da família ali existente. Ninguém me tira da cabeça que a Quinta do Passeia, de que o filho da Tia Amélia era feitor, pertencia a um neto do avô Jerónimo que pelo casamento com a Maria Alvares da Silva vinha a ser parente do Padre António. Como diz o ditado, há muitas Marias na Terra, e eu posso estar a imaginar coisas, mas para mim isto anda tudo ligado!

2024-11-15

Génesis!

 O «Livro do Génesis» é um dos livros mencionado na Bíblia que explica as nossas origens.

O primeiro livro da Bíblia, Gênesis, do latim “nascimento”, “origem”, retrata o princípio de tudo.
Ao longo dos 50 capítulos, podemos entender a história e os acontecimentos na criação do mundo, como tudo se originou. Deus, após criar os céus e a terra, cria o homem à sua própria imagem. Além disso, em Gênesis acompanhamos também a origem do povo de Israel.
Neste livro é descrita a transformação do caos em ordem ao longo de seis dias. No sétimo dia, havendo Deus terminado toda a Sua obra, descansou; abençoou o sétimo dia e o santificou.

Na série «Rissos e Cananos» de que aqui já escrevi alguns capítulos, conta-se a evolução da família tendo como ponto de partida o avô Francisco José que nos transmitiu o apelido de Silva. Hoje pretendo ir mais longe, ir mesmo à origem da espécie, ou seja, à Maria da Anunciação que foi a precursora da nossa família do lado paterno.

 Gastei 3 horas a folhear o Livro dos Baptismos de Barcelos, sabendo que pouco ganharia com isso, pois uma vez que a Maria da Anunciação fora exposta na Roda de Barcelos tudo que conseguiria descobrir seria a data de baptismo, já que todo o resto se manteria incógnito para sempre. Se chegou a haver algum segredo revelado às monjas que cuidavam da Roda, esse desapareceu com elas, há muitos anos.

Acho que não vale a pena perder tempo a escrever o texto em letra de forma, pois tudo o que se dali aproveita é a data de 5 de Março de 1820 que corresponde ao dia em que alguém fez girar a roda, depois de lá ter metido a bebé bem embrulhadinha que no princípio de Março faz ainda muito frio. Isto digo eu por acreditar que quem se encarregou da operação tinha consciência e alma cristã e não queria mal à criança que alguém depositara nas suas mãos para a a fazer desaparecer da vida de quem lhe dera o ser.


Portanto, meus caros leitores, para lá de 1820, nós, os Rissos e Cananos não temos História. O que vos posso contar é que essa menina, depois da Roda, onde só se ficava até ser capaz de singrar na vida, ou seja, por volta dos 10 anos, foi viver para Goios e lá conheceu um "bom filho da mãe" que a engravidou e botou no mundo outra menina que viria a chamar-se Maria das Dores e dessa nasceria, em primeiro lugar (1863) o Francisco e 4 anos mais tarde (1867), a Rita que, na freguesia de Gueral, deram origem às nossas duas famílias.

Maria, filha natural de Maria da Anunciação, exposta da Roda de Barcelos, do lugar de ? Vardelos ? desta freguesia de Santa Maria de Goios, nasceu no dia 23 do mês de Setembro do ano de mil oitocentos e quarenta e no dia vinte e seis do sobredito mês e ano foi solenemente baptizada com imposição dos santos óleos na Pia Baptismal de Santa Maria de Goios por mim Padre José António Paradella. Foram padrinhos Jacinto José de Araújo, do lugar da Gandra, e Maria filha de Domingos da ? Rocha ?, do lugar da Gandra, ambos desta freguesia. E para constar fiz este assento que assino. Era ut supra 

O Francisco registou em seu nome 3 filhos, Glória, António e Ana, ao passo que a Rita chegou aos 7, Armindo, o José, a Maria, a Ana, o António, a Clementina e o Aurélio (não garanto que não haja mais algum que me escapou ou nasceu depois da Implantação da República).

Prometo procurar os capítulos já escritos e relacioná-los debaixo da etiqueta "Rissos" ou "Cananos" de modo que possam consultá-los, se assim vos aprouver!

2024-11-12

A avó Ana Maria!


Aos dezoito dias do mês de Outubro de mil oitocentos e setenta e cinco, nesta parochial egreja de S. Miguel de Chorente, concelho de Barcelos e Diocese de Braga, baptizei solenemente um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Anna Maria e que nasceu nesta freguesia pelas dez horas da noite do dia quinze do dito mês e ano, filha natural e primeira deste nome de Augusta Maria exposta da Roda de Braga, criada que foi do serviço de lavoura em casa de João de Faria do lugar da Torre, desta freguesia e hoje moradora nesse mesmo lugar desta freguesia. Foi padrinho Miguel José Ferreira, solteiro, sapateiro, do lugar da Castanheira, e madrinha Anna Maria, viúva, lavradeira do lugar de Amins, ambos desta freguesia. E para constar lavrei, em duplicado, este assento que depois de lido e conferido perante os padrinhos o assino com a madrinha por o padrinho não saber escrever. Era ut supra.

 Assinatura da madrinha - Ilegível
O Encomendado – António Ferreira da Silva

Muito menos famosa que a nossa avó Maria, a quem todos chamávamos "Madrinha", imitando a nossa irmã mais velha, essa sim a verdadeira afilhada da nossa avó Maria, e menos ainda participativa na nossa educação, a avó Ana Maria viveu a sua vida entre Chorente, onde nasceu, em Gueral, onde cresceu e nas Carvalhas, onde morreu e foi sepultada.

Lembro-me de ela ter vivido connosco, em Macieira, por um curto período e sei que foi acabar nas Carvalhas para tomar conta das suas duas netas, nascidas no início da década de 50 do século passado, uma vez que a mãe delas era obrigada a passar o tempo fora de casa fazendo pela vida. A comida não aparecia em cima da mesa por milagre, era preciso labutar no duro para a poder adquirir.

Como se vê no averbamento à margem, no seu assento de baptismo, ela faleceu em 26 de Fevereiro de 1954, andava eu ainda a estudar para passar da 3ª para a 4ª Classe. Estava muito convencido que ela falecera quando eu estava no Colégio, em Coimbra, mas, como se pode ver, estava bem enganado!

Quando passarem pela igreja e cemitério das Carvalhas, parem por um breve momento e peçam a Deus e aos santos que a levem para o céu, se ela não estiver lá ainda!

2024-11-05

A minha avó Maria!

Ela tem, forçosamente, que estar no céu de tantas vezes que me lembro dela e do bem que ela me fez! Como amanhã faria 134 anos (e um mês), se fosse ainda viva, quero deixar aqui este registo para que todos os seus netos gravem na memória o dia do seu nascimento que foi a 6 de Outubro e não 7 de Novembro, como nos foi dito, quando éramos crianças.


Na imagem acima estão os dados do seu registo de baptismo. O seu pai chamava-se Agostinho Dias e o seu avô Domingos Gomes da Lagoa Negra, casado com Maria Antónia da Apúlia. Os seus avós maternos eram ambos de Macieira, ele da família Alvares Ferreira e ela da família dos Caetanos.

Por direitas contas, ela deveria chamar-se Maria Alves Dias, mas o seu pai não lhe passou o apelido, tal como o seu avô que era Gomes o não passou ao filho. Se o tivesse feito, então o nome seria Maria Alves Gomes, mas isto agora pouco interessa, ficou a ser Alves de Sousa, tal e qual como a sua mãe Eusébia.

 Nós, os seus netos, sempre lhe demos os parabéns no dia 7 de Novembro e vai ser difícil mudar isso para o dia 6 de Outubro, mas, pelo menos, que se saiba que agora sabemos qual foi, exactamente, a data do seu nascimento, com hora e tudo. "Pelas 3 horas da manhã", como consta do Livro dos Baptismos da freguesia de Barqueiros que está guardado no Arquivo Distrital de Braga.

E eu, hoje, poderia ser o Manuel Dias ou Gomes da Silva, em vez de ser Álvares ou Alves, herdeiro do nome da minha avoenga Maria Álvares da Silva de Goios, apelido que carrego com muito prazer!

N.B. - Esqueci-me de mencionar que a madrinha foi a Maria Páscoa que já andava lá por casa do Sr. Agostinho Dias e viria a casar com o Carlos, irmão da Maria (minha avó)!

2024-11-01

Rascunhos antigos!

A Tina da Olívia

Vi e ouvi montes de histórias pela minha vida fora. Algumas são verdadeiras, outras serão inventadas, talvez, mas valem o mesmo. Pouca gente se interessará por elas, mas ficam aqui guardadas, nesta biblioteca que é universal. Pode ser que algum dia lhe encontre serventia. Quem sabe?

Não me lembro de outra amiga da minha mãe, tão chegada como ela. Quando eu era pequenote, nada nos ligava á freguesia onde ela morava, mas não se passava lá sem ir visitá-la. Daquela freguesia era natural o meu pai. E ele era um tanto ou quanto caustico a respeito desta amiga da sua mulher. Que era tudo uma cambada de pu..., dizia ele. Basta ver como ela nasceu, ou melhor, quem era o pai dela!

No tempo em que não havia máquinas terraplanadoras as estradas faziam-se à força de braços. E de pernas também. E aquela estrada de Gueral até Chorente gastou milhares de gigotes de saibro e cascalho, carregados à cabeça pelas mulheres das redondezas O trabalho era mais duro do que andar ao jornal para os lavradores, mas a jorna era melhor. E ser amiga de capatazes e cantoneiros sempre aligeirava um pouco as canseiras do duro trabalho. O problema é que, por vezes, ficavam para a posteridade as provas vivas desses favores,prestados nas valetas daquela estrada. Como a Tina!

Avô mas pouco

É assim que consta do meu registo de nascimento, avoengo paterno de Francisco Silva e Ana Maria de Oliveira. Só que não é verdade, ele não era meu avô. De facto era estéril e, nos primeiros anos de casamento, carregava de pancada a minha avó por não lhe dar descendência. Porca de vida!

Até que a avó, cansada de levar porrada, resolveu tirar as coisas a limpo. Arranjou um amante e em três tempos estava grávida. E dessa gravidez nasceu uma linda menina de olhos azuis que viria a ser a minha tia mais velha. O relacionamento entre os amantes continuou e dois anos depois nascia um menino que com a sua irmãzinha encheram de alegria aquela casa e de orgulho o avô Francisco.

Doze curtos anos mais tarde morreria aquele homem sem nunca ter descoberto que, de verdade, não tinha sido avô de ninguém.

Ora aí está! Se o avô Francisco não era o meu avô de verdade, então tinha que haver outro. E havia. Era o avô Capela. Como o destino não quis dar filhos ao Sr. Francisco, coisa que ele muito queria, a avó Ana Maria foi ao Capela pedir ajuda e foi atendida. Dessa ajuda, com tanta solicitude prestada, o meu (verdadeiro) avô Capela ofereceu ao meu (só para que conste) avô Francisco, primeiro a minha tia Glória e depois o meu pai António.

Eu até podia sentir vergonha por estas coisas do passado, não podia? Mas não sinto vergonha nenhuma e não me importo de o relatar a quem quiser ouvir. É a pura verdade e eu não tenho que ser juiz em causa alheia. A minha avó fez aquilo que achou certo e arcou com as responsabilidades do que fez. Talvez ao meu pai tenha custado um pouco andar de cara levantada naquela terra, mas isso foi há cem anos atrás e hoje não tem qualquer significado.

A Lagoa Negra

É, nada mais nada menos, que um lugar da freguesia de Barqueiros, concelho de Barcelos. Esta semana surgiu nas notícias por causa de uma escola especial que lá foi criada para tentar cativar os filhos da comunidade cigana. De um lado os que estão a favor, do outro os que estão contra, o pagode do costume. Política ou interesses partidários e mais nada. Os ciganos que se lixem! Quem quer saber dos ciganos? Eles que são uns individualistas do camandro que se amanhem!

O caso que aqui quero referir é que a minha bisavó Eusébia, natural da freguesia de Macieira, foi para lá viver depois de se casar com o meu bisavô que era dali natural. E por lá se manteve até enviuvar, altura em que regressou a Macieira na companhia da sua filha Maria e da sua neta Rita que vem a ser a minha mãe. Só para que conste devo dizer que a minha avó Maria é a única pessoa da família que é natural de Lagoa Negra. A sua mãe, como ficou dito atrás, era de Macieira e a sua filha Rita tinha nascido em Rio Mau, do concelho de Vila do Conde.

Há, ainda hoje, na Lagoa Negra, um casal com duas filhas e alguns netos que são os únicos familiares remanescentes da passagem da minha bisavó Eusébia por aquelas terras.

Analfabetismo

No século XIX e antes disso, poucos sabiam ler e escrever. Vivia-se ainda na época em que as classes sociais, Nobreza, Clero e Povo, tinham vidas bem distintas. Apenas os membros do Clero tinham escolaridade garantida. Mesmo nas famílias nobres havia quem não quisesse preocupar-se com essas coisas, pois não lhe sentiam a falta. Com as mudanças que se foram gerando na sociedade, a Nobreza começou a empobrecer e o Povo dividiu-se em dois grupos, os Burgueses e os Pobres. Nos países em que a Monarquia cedeu o lugar à República, como é o nosso caso, o Clero perdeu grande parte dos seus previlégios e a Nobreza evaporou-se. Tomaram conta do mundo os membros da Burguesia.

O meu pai nasceu no início do século XX, com a República já implantada neste país. Como não nasceu em família burguesa, não teve direito a ir para a escola, morrendo 90 anos depois como analfabeto.

Duas avós

Uma chamava-se Maria e a outra Ana Maria. Não se davam nada bem uma com a outra. Nos raros períodos em que tiveram que partilhar casa, era uma guerra pegada. As duas tinham os seus pecados e tinham que pagar por eles. Não dizem que o inferno é neste mundo? Pois então! Estavam a sofrer para desconto dos seus pecados.

Lavar a alma ou despejar o saco são expressões usadas para dizer que se fica aliviado depois de descarregar o peso daquilo que nos traz apreensivos ou preocupados. Há pessoas que carregam segredos a vida toda sem os poder contar a ninguém e isso pesa, pesa muito! Partilhar isso com alguém alivia o peso do fardo que se carrega. Eu não sou diferente, também tenho os meus segredos. Só que alguns não se podem mesmo contar e o remédio é carregar com eles até ao cemitério. Paciência.

O cego do Barroso

Era cego, mas fazia piões como ninguém!

Usar o torno para dar forma a um pedaço de madeira requer mais sentido do tacto que da visão. Esse era o seu trunfo e sabia usá-lo como ninguém.

Já deve ter morrido há muitos anos, pois já era velho quando eu entrei para a Escola Primária. Agora sou eu o velho e são os meus netos que estão na idade de jogar ao pião. Mas eu nunca poderia esquecer o artista que torneou os piões que fizeram a alegria da minha infância.

Família paterna

Basicamente, neste blog tenho escrito sobre a minha família e as suas origens pouco tradicionais, seja lá o que isso quer dizer. Isto de ter avós que o não são e tios que são só meios, vai desaguar em primos que o são apenas em um quarto. Confuso? Eu explico.

O meu pai tinha duas irmãs, melhor dizendo, tinha uma irmâ e uma meia irmã. A irmâ teve muitos filhos e filhas e deu-me, por isso, uma quantidade de primos direitos e completos, quero dizer, 100% primos. A meia irmã teve apenas duas filhas, minhas primas que compartilham comigo a avó, mas não o avô, por conseguinte primas incompletas.

Estas duas miúdas, curiosamente, herdaram cada uma delas as características genéticas de um dos progenitores, a mais velha o pai chapado e a mais nova o físico e o génio da mãe. Sendo as duas meias sobrinhas do meu pai, como devo eu considerá-las em relação a mim? Talvez considerar como não me sendo nada, aquela que nada herdou da minha tia e, por consequência, nada também da minha avó e muito menos do avô que nos não era comum. Ou uma delas meia prima e a outra apenas um quarto? Sim, porque prima completa nenhuma delas é.

Para completar este quadro de indefinições matemáticas, no que diz respeito à herança genética, também a minha outra tia, a que teve muitos filhos, pariu um último filho depois de ficar viúva, ou seja, deu-lhe um pai diferente do de todos os outros irmãos. Resultado, mais um meio sobrinho para o meu pai e um quarto de primo para mim.

Os Cananos

Toda a vida me perguntei porquê a alcunha de «Canano» e de onde viria ela. Ana Canana era a minha avó paterna e quero crer que o seu marido Francisco José nada tinha a ver com esse nome. O meu pai acabaria por abandonar a terra que o viu nascer, tal como a sua mãe o tinha feito também - uma vez que o meu pai nasceu em Gueral - e o nome de Canano ficou praticamente reservado para a tia Glória. De tal modo que foram os seus muitos filhos, tal como agora os netos, que mantém ainda a alcunha conhecida por terras do concelho de Barcelos.

A freguesia das Carvalhas, onde foi sepultada a minha avó há perto de 70 anos, deve ser o berço do ramo paterno da minha família. Tenho andado a pensar em visitar o Registo Civil e pedir uma certidão de nascimento do meu pai para ver se fico com as ideias mais claras no que diz respeito às minhas origens. Não é por nada, mas um homem gosta de saber de onde veio.

Os meus primos cananos em primeiro grau não tiveram grande descendência e morreram todos relativamente cedo dizimados pela diabetes. Há, no entanto, um deles que deixou vários filhos que continuam a carregar orgulhosamente a alcunha da sua bisavó Canana. Não me parece que eles sejam frequentadores da internet e dificilmente terão oportunidade de ler estas linhas, mas quem sabe se algum seu descendente, mais habituado a estas novas tecnologias, não aterrará aqui e reconhecerá a alcunha porque ainda hoje os seus pais são tratados. A internet é hoje como era o oceano Atlântico quando o Álvares Cabral se fez ao mar e foi parar ao Brasil, um lugar cheio de surpresas.

O avô de Lagoa Negra

Pelos meus cálculos, nasceu em 1826, mas também pode ter sido no ano seguinte. Para aquilo que importa para a minha história, no início do ano de 1890, ele já estava viúvo e engraçou com a minha bisavó Eusébia de tal modo que a engravidou e no mês de Março, desse mesmo ano de 1890, se viu forçado a casar com ela para salvar as aparências.

O que teria levado um homem, viúvo de 63 anos, da Lagoa Negra até Macieira, ou uma mulher, solteira de 38 anos, de Macieira até à Lagoa Negra, eu nunca virei a saber. O que eu sei é que se casaram, pois o abade da freguesia fez disso o devido registo por escrito e que eu li, com estes olhos que a terra há-de comer. E seis meses depois nascia aquela que haveria de dar à luz a minha mãe, a avó Maria que foi quem me criou, aqueceu no invervo e lavou o cu muitas vezes.

Por isso, o Sr. Agostinho Dias vem a ser o meu distinto bisavô materno, facto de que tomei conhecimento, há apenas dois dias. Só não percebi o porquê de não ter registado a sua filha Maria com o apelido Dias que era o único que tinha. Em vez disso deixou-a ficar com o nome da mãe que passou à sua filha e neta, aquela que me haveria de dar à luz no ano da graça de 1944. No mesmo mês em que nasci faria a minha bisavó 54 anos de casada, se ainda fosse viva, mas tanto quanto sei ela morreu um pouco antes de a minha mãe se casar, em 18 de Agosto do ano de 1938, com a bonita idade de 86 anos e uma doença que é moda, hoje em dia, o cancro da mama.

A avó de Chorente

Aos dezoito dias do mês de Outubro do anno de mil oitocentos e setenta e cinco, nesta parochial igreja de S.Miguel de Chorente, concelho de Barcelos e diocese de Braga, baptisei solenemente um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Anna Maria, e que nasceu nesta freguesia pelas dez horas da noite do dia quinze do dito mês e ano, filha natural e a primeira de Augusta Maria, exposta da Roda de Braga, criada que foi do serviço de lavoura em casa de João de Faria, do logar da Torre desta freguesia e hoje moradora no mesmo lugar desta freguesia. Foi padrinho Miguel José Ferreira, solteiro, sapateiro, do lugar da Castanheira e madrinha Anna Maria, viúva, lavradeira do logar de Amins, ambos desta freguesia. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de lido e conferido perante os padrinhos, o assino com a madrinha por o padrinho não saber escrever. Era est supra.

Uma assinatura ilegível

O Comendador António da Silva Ferreira

Averbamento à margem: Faleceu nas Carvalhas, deste concelho, no dia 26 de Fevereito de 1954 (Registo de Óbito Nº 252).

A avó Maria

Aos sete dias do mês de Outubro do anno de mil oitocentos e noventa, na igreja parochial de Barqueiros, concelho de Barcelos e diocese de Braga, baptisei solenemente um indivíduo do sexo feminino a que dei o nome de Maria que nasceu pelas três horas da manhã do dia seis do dito mês e anno, no logar de Lagoa Negra desta freguesia, filho legítimo de Agostinho Dias, desta freguesia, e Eusébia Alves de Sousa, da freguesia de Macieira de Rates, nesta recebidos, parochianos e moradores; neto paterno de Domingos Gomes, desta freguesia, e Maria Antónia, de S.Miguel da Apúlia, e materno de Joaquim Alvares de Sousa e Maria Isidória, de Macieira de Rates. Foram padrinhos S.António, cujo patrocínio invocaram, e Maria dos Anjos Páschoa, solteira, jornaleira, desta freguesia. E para constar lavrei em duplicado este assento lido perante e conferido perante a madrinha e vou somente assinar por esta não saber escrever. Era ut supra.

O Parocho : António do Patrocínio Domingues de Araújo.

Averbamento à margem:

Faleceu em Touguinha, concelho de Vila do Conde, em 30 de Abril, doc. nº 122, maço nº 5. Em 7 de Maio de 1970. Maria Clara

A descendência

A ambição de qualquer pai, ou mãe, é ter um casal de filhos e não dois rapazes ou duas raparigas. Pois assim aconteceu com a minha bisavó Eusébia. Na casa dos seus 20 anos nasceu-lhe um rapaz, a que deu o nome de Carlos, e cerca de dez anos depois chegou a rapariga, a que deu o nome de Maria.

Da sua filha Maria nasceu-lhe uma neta apenas, mas que gerou uma imensa prole nas três gerações seguintes. Uma prole que conta, até à data, com 12 filhos, 30 netos, 26 bisnetos nascidos e mais 2 a caminho, ou seja, um total de 68 parentes vivos que comparam com os "apenas" 5 do outro ramo familiar.

Por outro lado, do seu filho Carlos, nasceram 4 netos, dois de cada sexo. Das duas netas só uma deu à luz e apenas um filho que é do meu ano e vive aqui perto de mim. Dos dois netos, também apenas um deixou descendência, mas como se casou no Brasil, não sei como terminou essa história, nem quantos filhos teve. Para o que interessa da minha história familiar, resta-me apenas o bisneto que cá vive e mais as suas duas filhas e dois netos, num total de 5 parentes.

Aos dez dias do mês de Maio do anno de mil oitocentos e oitenta, neste igreja parochial de Santa Leocádia de Pedra Furada, concelho de Barcelos, diocese de Braga, baptisei solenemente um indivíduo do sexo masculino a quem dei o nome de Carlos e que nasceu nesta freguesia às nove horas da manhã do dia nove do referido mês e anno supra, filho natural de Eusébia Alves de Sousa natural da freguesia de Santo Adrião de Macieira de Rates do mesmo concelho e diocese e de presente residente nesta freguesia, no lugar de Real de Cima, neto materno de Joaquim Alves de Sousa e Maria Isidória, da referida freguesia de Macieira; foram padrinhos Luiz Alves de Sousa, criado de servir, na dita freg. de Macieira, e Joaquina da Costa, filha de António da Costa Simões e Rita da Silva Graça (?), os quais sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que assino comprovando. Era ut supra.

Assinaturas:

O Padrinho - Luiz Alves de Sousa

O Pároco – António Alves da Silva

Primas mas pouco

A minha avó e a Tia Rosa tratavam-se por primas. Rosa do Jerónimo foi o que sempre ouvi chamar-lhe e parti do princípio que este era o nome do seu pai, mas na realidade isso não era verdade. Como a mãe da avó Maria se chamava Eusébia Alves de Sousa e o pai da Tia Rosa se chamava José Alves de Sousa, admiti que pudessem ser irmãos e daí o tratamento de prima entre elas.

Mas, de facto, não era assim. Dei-me ao trabalho de investigar os respectivos assentos de nascimento (o que me deu uma enorme trabalheira) e descobri que os avós da Tia Rosa se chamavam Manuel Alves Ferreira de Sousa e Ana Joaquina, enquanto que os da minha bisavó Eusébia davam pelos nomes de Joaquim Alvares de Sousa e Maria Isidória. Portanto, e sem sombra de dúvidas, irmãos eles não eram.

Pelos nomes Ferreira de Sousa e Alvares de Sousa dá para perceber que esses antepassados das "primas" Rosa e Maria também não eram irmãos, quando muito poderiam ser primos, o que atira o parentesco para um grau demasiado remoto. Chegado a este ponto desinteressei-me da coisa.

E voltando ao nome de Jerónimo, havia uma cunhada da Tia Rosa que era tratada por Amélia do Jerónimo. Seria esse o nome do marido que era irmão da Tia Rosa? E daí a razão de ambas serem tratadas pela designação de «do Jerónimo»? Já o irmão da Tia Rosa, chamado David, é tratado por «David do Velho» e não «David do Jerónimo».

Pois é, como diz o ditado, Marias há muitas e eu que o diga.

Não eram irmãos, eram primos. Ontem avisei que ia estudar a história do José, irmão da Eusébia, e assim fiz. E descobri que ele não é, de facto, o pai da Tia Rosa. É uma coincidência rara o pai da Tia Rosa ter um nome exactamente igual ao do seu primo José que nasceu em 1848, enquanto que ele nasceu em 1846 e de um pai diferente que, por acaso, é irmão do pai do outro José

Complicado não é? Mas depois de se saber a história toda é fácil de perceber. O José que nasceu em 1846 teve uma filha, a Rosa, em 1889 e a Eusébia que nasceu em 1852 teve uma filha, a Maria, em 1890. Estes dois bebés nascidos com um ano de diferença, nos finais do Século XIX, filhos de primos direitos eram, por conseguinte, entre si, primos em 3º grau.

A minha tetravó Ellena Maria de Sousa teve dois filhos, o Manuel e o Joaquim que se casaram, tiveram filhos e originaram esta confusão toda pela simples razão de ambos terem decidido dar o nome de José ao filho primogénito. E quem se lixou, ao fim de todos estes anos, fui eu que queimei as pestanas, horas a fio, para deslindar toda esta trama.

Bem, está feito, fica aqui a história para os meus herdeiros lerem, sem terem que passar pelas dificuldades que eu passei.

Uma coisa séria

Quando iniciei este blog foi para aprender a trabalhar com o Sapo Blogs e relatar algumas das minhas memórias em tom de brincadeira e de modo anónimo. Como se pode ver pelos últimos posts publicados, a coisa tornou-se séria. A curiosidade fez-me mergulhar no meio dos registos antigos à procura dos meus ascendentes que, com alguma dificuldade, fui encontrando a pouco e pouco. E com isso, lá se foi o anonimato e acabou-se a brincadeira.

Criei um link para o blog «Povo da Minha Terra» para estudar o passado das gentes que viveram no tempo dos meus tetravós com o intuito de ver se me deparo com nomes de familiares que de outro modo poderiam passar-me despercebidos. Como ponto de partida, comecei a publicar os registos de casamento, na tentativa de "pescar" o registo de casamento do meu trisavô e tetravô maternos que calculo estarem em datas próximas dos anos 1860 e 1830, respectivamente, uma vez que a minha bisavó, filha e neta dos mesmos, se casou no ano de 1890.

Vai dar para queimar as pestanas, mas está decidido. Mãos à obra, portanto!

O avô materno

Já aqui referi, em tempos, que tanto o meu avô paterno, como o materno, foram refractários à minha família. O primeiro porque não era o marido da minha avó e não podia dar as caras e o segundo porque ficou registado que era incógnito e morreu continuando a sê-lo.

Meti na cabeça que tinha que reunir elementos sobre as suas respectivas identificações e desde há algum tempo que ando às voltas com esse assunto. Sem quaisquer bases por onde começar a investigação não é tarefa fácil, mas ontem fiz uma visita ao Registo Civil e trouxe alguns dados que me permitiram, depois de horas a decifrar velhos registos paroquiais, localizar o assento de baptismo do meu avô materno.

Sempre o imaginei natural da Póvoa e fiquei admirado ao descobrir que também ele, tal como a minha avó, era natural do concelho de Barcelos e mais precisamente da freguesia de Santa Eulália de Rio Covo. Já o pai dele, o meu bisavô João, era da freguesia de S.Bento da Várzea e a mãe, a minha bisavó Maria Rosa, da freguesia de Airó. As voltas da vida levaram-no até à freguesia de S.Cristóvão de Rio Mau, no concelho de Vila do Conde, onde conheceu a minha avó e juntos deram vida à minha mãe, única da família nascida fora do concelho de Barcelos.

A razão porque não houve casamento nunca chegou ao meu conhecimento, mas imagino que razões familiares tenham estado na origem disso. Sem fortuna, sem família e com dificuldades em encontrar emprego, ele acabaria por emigrar para França e por lá viveu sozinho até morrer, por volta da época em que sucedeu a revolução dos cravos, em Portugal. Estou a planear dar um novo pulinho ao Registo Civil para ver se será possível localizar o registo do óbito.

Aos quatorze dias do mês de Novembro do ano de mil oitocentos e noventa e dois, nesta igreja paroquial de Santa Eulália de Rio Covo, anexa à freguesia de Santa Maria de Moure do concelho de Barcelos e diocese de Braga, o Reverendo Candido Manuel Rodrigues, com autorização minha, baptizou um indivíduo do sexo masculino a quem deu o nome de António que nasceu nesta freguesia, às nove horas da noite, do dia dez do ditto mês e ano supra, filho legítimo de João José de Sousa, natural da freguesia de S.Bento da Várzea e de Maria Rosa Caravana Montes, natural da freguesia de S.Jorge de Airó, ambos deste concelho, lavradores, recebidos como paroquianos e moradores no lugar da Guarda(?); neto paterno de avô incógnito e de Ana Maria de Sousa e neto materno de Joaquim José Montes e de Ana Luzia de Sousa Caravana. Foram padrinhos António José da Fonseca, viúvo, e Dona Maria Rosa da Fonseca, solteira, proprietários do lugar de Passos desta freguesia de Rio Covo, os quais todos conheço e sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento que depois de ser lido e conferido por mim perante os padrinhos, comigo só assinará o padrinho e não a madrinha por esta me declarar que não sabia escrever. Era ut supra.

Assinado: O Padrinho – António José da Fonseca

O Pároco – João Manuel Alves Penteado(?)

Sabia que o meu avô materno se chamava António, mas como ele não deu as caras para registar a minha mãe como filha legítima, nada mais sabia dele além do nome. As voltas da vida levaram-me a conhecer uma sua sobrinha que morava na mesma vila que eu e cada vez que me cruzava com ela assaltava-me a curiosidade de saber mais a respeito dos nossos antepassados comuns. Um dia falei-lhe nisso, mas ela deixou deslizar a conversa para outros assuntos e assumi que não estaria muito interessada em mergulhar num passado que podia não ser só de alegrias. Durante muitos anos, arrumei o assunto num escaninho da minha memória e só agora, passados que são três anos da morte dessa prima-irmã da minha mãe, resolvi ir buscá-lo e seguir essa pista para descobrir quem era e de onde veio o meu avô.

A partir da identificação do pai dela não me foi muito difícil identificar quem foi o seu avô e daí em diante, com uma boa dose de paciência para consultar centenas de velhos registos de baptismo, com quem este se casou e quantos filhos tiveram, etc. e por aí fora. Outras coisas virei ainda a escrever sobre este assunto, mas hoje quero apenas deixar aqui registado o que descobri sobre os meus bisavós e a descendência que puseram neste mundo.

No meu post anterior pubiquei um texto que mais não é que o registo de baptismo do filho mais velho desse casal de quem descendo. Segundo esse registo, o rebento a quem foi posto o nome de Davide, nasceu no dia 18 de Setembro de 1889. E depois dele nasceram mais oito, segundo consegui apurar durante as minhas pesquisas:

1889-09-18 - Davide

1892-11-10 - António

1894-12-21 - Cândido

1897-04-25 - Maria Rosa

1900-01-29 - Geremias

1902-03-15 – José

1904-10-23 - Manuel

1907-02-17 - Alzira

1909-03-15 – Júlio

Filha do António, a minha mãe deu à luz doze filhos e teve ainda dois abortos pelo meio. Digam-me lá se isto é ou não é uma boa cepa. E dela descendem 30 netos e outros tantos bisnetos (por enquanto).

Nas malhas do destino

No ano de 1852, nascia Eusébia de Sousa, na freguesia de Macieira. No ano seguinte, nascia João de Souza, na freguesia de S.Bento da Várzea. Por coincidência ambos usavam o apelido de Sousa, mas nenhum grau de parentesco os ligava. Mas um e outro geraram filhos que no futuro se encontrariam dando origem à família a que pertenço.

Da Eusébia nasceu Maria, no ano de 1890, no lugar de Lagoa Negra da freguesia de Barqueiros. Do João nasceu António, no ano de 1892, na freguesia de Santa Eulália de Rio Covo.

No ano de 1915, encontravam-se os dois, Maria e António, na freguesia de S.Cristóvão de Rio Mau, como trabalhadores agrícolas da mesma casa de lavoura e do romance que ali viveram nasceu uma menina a que puseram o nome de Rita.

O destino que rege a vida de cada um de nós fez com que as duas mulheres, mãe e filha, regressassem à freguesia de Macieira, de onde eram originários os seus antepassados. Por outro lado, o pai da criança emigrou para França, de onde nunca regressaria.

A família Ferreira

E o verbo era "ferreira". Segundo os estudiosos da Genealogia, ciência que estuda as nossas origens, o nome Ferreira fou atribuido a uma mulher cujo marido era ferreiro, ou que exercia ela mesma essa profissão. Para o caso tanto se me dá, pois não quero discutir a origem do nome, mas sim as pessoas que nos três séculos, antes deste, usaram esse nome e que, tal como eu, descendem desse Ferreira que deu início à nossa linhagem.

Nas pesquisas que encetei para identificar os meus antepassados, cheguei até ao Senhor Manuel Ferreira, natural do lugar do Outeiro, que viveu nos princípios do Século XVIII. Para se casar, tomou uma mulher do mesmo lugar, chamada Rozária. Deste casal nasceu o meu pentavô Jerónimo, que por sua vez se casou, mas, ao contrário de seu pai, foi em Goios que a encontrou. De seu nome Maria Alvares, foi ela que trouxe este nome, ou o seu sucedâneo Alves, para a nossa família e que vigora ainda, inclusivé no meu próprio nome.

A família de Rio Covo

Não ter conhecido o avô António, sabendo que ele teria gostado de conhecer os seus netos, foi uma coisa que sempre me deu que pensar. De vez em quando chegavam notícias dele. Primeiro que vivia em França, mas não tinha constituido família, anos mais tarde que tinha falecido, sem ter estabelecido contacto com alguém da sua família cá em Portugal.

Sempre tive a intenção de procurar os seus familiares, mas sem saber muito bem por onde começar. Tinha ouvido dizer que a minha mãe, com a idade de 11 anos, portanto por volta de 1927, o tinha ido visitar à Póvoa, o que me levou a assumir que ele era natural ou morava na Póvoa. Afinal, isso não era verdade, muito embora possa ter vivido nessa Vila durante algum tempo. Com ele foram três os irmãos que saíram de Santa Eulália de Rio Covo e foram parar à Póvoa. Ele partiria, depois, em direcção à França, em busca de melhor vida, mas os outros dois, de seus nomes Geremias e Manoel, na Póvoa casaram, na Póvoa viveram e na Póvoa morreram.

Como as histórias se começam sempre pelo princípio, fui à procura do nome e da origem dos pais destes irmãos que juntamente com o meu avõ vieram parar à Póvoa e aqui fizeram a sua história. E depois de os encontrar vou deixar aqui, para quem quiser ler, os registos de nascimento.

Dos nove filhos do meu bisavô João Joze, três vieram parar à Póvoa. A vida para os lados de Santa Eulália não devia ser fácil e o remédio foi botar o pé na estrada e procurar outras paragens onde fosse mais fácil alinhavar um futuro. António era o mais velho dos três, por aquilo que sei, trabalhou nas casas agrícolas do concelho da Póvoa e mais tarde emigrou para França. Geremias era o número cinco, por ordem de nascimento, e veio também para a Póvoa trabalhar como marçano. Constituiu família, mas acabaria por morrer muito jovem ainda, com trinta e nove anos apenas, talvez levado por alguma doença ruim. Manoel era o sétimo filho de João Joze, quase cinco anos mais novo que o Geremias e doze que o António, veio também procurar meios de vida nesta terra de pescadores. Ainda não consegui descobrir coisa alguma sobre a sua vida, o que fazia, se tinha ou não família e, em caso afirmativo, se era ou não numerosa. Só descobri, porque está averbado no seu registo de nascimento, que se casou na Igreja Matriz da Póvoa e nesta terra faleceu, no ano de 1982, com a idade de 68 anos.

No caso de ele ter tido muitos filhos, existe a grande possibilidade de se terem cruzado comigo centenas de vezes, uma vez que vivo há quase cinquenta anos na mesma paróquia da Matriz. A Rua 1º de Maio que dá acesso ao centro da Póvoa, é uma espécie de carreiro de formigas por onde passa toda a gente que vive na parte nascente da cidade.

No início do Século XX, os moradores da Póvoa dividiam-se em quatro grandes grupos. O primeiro ocupava uma área de cem metros em redor da Câmara Municipal e nas imediações da Rua da Junqueira, e era constituido pela classe média e pela gente mais rica. Na beira-mar, ao norte e sul do Passeio Alegre, situavam-se os dois bairros de gente que vivia do mar, da pesca, do pilado e do sargaço. O resto da população, mais ligada ao comércio e às artes e ofícios, ocupava toda a área nascente da cidade, vila nesse tempo. Tudo isto para dizer que é quase certo que o Tio Manoel residia nesta última zona e devia andar para cima e para baixo pela Rua 1º de Maio cada vez que saía de casa.

Se tiver casado por volta de 1930, poderá ter filhos mais ou menos da minha idade. Os tais primos com quem me posso ter cruzado centenas de vezes, na mesma rua onde moro, sem fazer a mínima ideia do laço familiar que nos une.

A vida das mulheres do mundo rural, no início do Século XX, não era pera doce. Ou os pais tinham terras e toda a família vivia do seu rendimento, ou não tinham e as filhas eram obrigadas a partir em busca de trabalho e sobrevivência. Foi assim que Maria de Sousa, da quinta geração que aqui apresento, foi parar a S.Cristóvão de Rio Mau, concelho de Vila do Conde, e lá conheceu aquele que seria o único homem da sua vida. Nascido na freguesia de S.Bento da Várzea, no ano de 1891, de seu nome António de Sousa, também ele se vira obrigado a partir à procura de trabalho. E desse romance nasceria a minha mãe, mas isso já é outra história.

O avô Jerónimo

Quando descobri que era descendente do homem cujo nome ecoava ainda em Macieira quando eu nasci, Jerónimo Ferreira, julgava ter descoberto tudo o que havia para descobrir sobre as minhas raízes. Afinal não era assim. Esse meu antepassado herdou o apelido "Ferreira" do seu pai que se chamava Manoel Ferreira. O problema está no facto de nem o seu avô ou avó usarem esse apelido. Vamos concluir, por conseguinte, que esse nome foi usurpado.

Ora, o pai de Manoel Ferreira chamava-se Miguel Alvares que nasceu na freguesia de Negreiros e foi casar a Gueral com uma rapariga que morava no lugar da Ribeira e se chamava Maria Gonçalves. Manoel Alvares deveria ser o seu nome e assim aparece, de facto, em alguns documentos escritos, mais tarde, pelo Reitor de Macieira.

Indo escolher noiva ao lugar do Outeiro, em Macieira, foi com Rozária (ou Rozália) Francisca que veio a casar-se. Ela era filha de António Araújo, nascido e criado nesse lugar dessa freguesia, e de Hilena (ou Illena) Manoel, natural da Vila de Rates. E foi, portanto, deste casal, ele de Gueral e ela de Macieira, que veio a nascer o Jerónimo que recebeu do seu pai o apelido de Ferreira, mas que este não teria o direito de lhe passar.

Mas como este mundo tem sempre artes de corrigir aquilo que os homens deturpam e o Sr.Jerónimo Ferreira escolheu para se casar uma mulher que também tinha o apelido de Alvares, ao fim de duas gerações o "Ferreira" tinha sido banido da Família. O seu filho Joze ainda usou esse apelido juntamente com o Alvares da sua mãe, mas já os seus filhos optaram por juntar o "Souza" da sua mãe ao "Alvares" do seu pai e assim o meu trisavô Joaquim já era um "Alvares de Souza".

Em conclusão, as minhas verdadeiras raízes do lugar do Outeiro, da freguesia de Santo Adrião de Macieira, onde eu nasci no longínquo ano de 1944, vêm do Sr. António Araújo e da sua filha Rozália Francisca. O Ferreira de Gueral, filho do Alvares de Negreiros, fazem parte dos meus antepassados, mas não sendo de Macieira perdem-se no nevoeiro dos tempos.

Avoengos paternos

Ao voltar-me para o lado da minha avó Ana Maria, o caminho é tão curto que acaba logo ali ao virar da esquina. A pobre era filha de pai incógnito e, para porar as coisas, a mãe, de seu nome Augusta Eduarda, era filha da «Caridade de Braga», a chamada "Roda", onde eram expostas as crianças abandonadas ou cujos pais não tinham possibilidades de as criar e, anonimamente, as iam lá deixar. Ou seja, o rol dos meus antepassados paternos acabou, ainda mal tinha começado.

Consta dos livros que a minha avó se casou em Junho de 1907, na igreja paroquial de Gueral, mas não encontrei o registo de tal acontecimento. Os três filhos, Glória, António e Ana, saídos desse casamento, vieram ao mundo em 1910, 1912 e o último em data posterior que desconheço.

Como se entende da conversa acima, o segundo filho, António, era o meu pai e ao ler o seu registo de nascimento descobri que o declarante foi pai, que o não era, que se fez acompanhar por três testemunhas, um carpinteiro de Faria, um pedreiro de Paradela e um escrevente de Barcelinhos e todos afirmaram que catraio acabado de nascer era filho legítimo do declarante e da sua mulher Ana Maria.

E para constar, tudo isto se passou para o papel para que fique registado e seja transmitido para a posteridade. Tal e qual como eu estou fazendo agora.

Ah, quase me esquecia de o mencionar, a despesa com o registo custou a exorbitância de ... 400 Reis!

Pensamentos vagabundos

No mês de Janeiro de 1890 houve um encontro entre um homem e uma mulher, ele de 62 anos de idade e ela de 37, que resultou no nascimento de um indivíduo do sexo feminino (como os padres gostavam de escrever nos seus assentos de baptismo) que viria a receber o nome de Maria, cerca de nove meses mais tarde, mais precisamente no dia 7 de Outubro.

Não falando na diferença de idades que já me dá muito que pensar, a circunstância de um deles morar em Pedra Furada e o outro em Barqueiros faz o meu pensamento vagabundear por uma série de possibilidades que não tenho, agora passados tantos anos, hipótese alguma de confirmar.

As gentes de Barqueiros viviam, como vivem ainda hoje em dia, muito mais em função da Póvoa, de que ficam mais próximos, que de Barcelos, aonde se deslocavam apenas para os actos oficiais obrigatórios, na Câmara Municipal, no Registo Civil ou nos tribunais. A feira semanal das quintas-feiras, em Barcelos, uma das mais concorridas no Minho, tem já uma tradição de muitos anos. Nela se juntam os lavradores de todas as freguesias do concelho para vender aquilo que produzem nas suas terras e comprar o que lhes falta. E pode muito bem ter sido ela a motivar o encontro mencionado no primeiro parágrafo deste texto.

Isto que acabo de descrever é o que nos levam a crer os documentos existentes onde foi registado o casamento dos dois e o nascimento do fruto desse encontro. E não estou a falar na feira de Barcelos que isso foi uma mera possibilidade introduzida por mim para dar cor ao meu relato. Mas, há sempre um mas a atrapalhar a história, e se não tivesse acontecido desta maneira?

Há uma infinidade de outras possibilidades. O homem de Barqueiros tinha ficado viúvo recentemente, coisa que não lhe agradava nem um bocadinho. Dois factores levaram-no a procurar uma mulher para lhe fazer companhia. O primeiro deles e que reputo de mais importante, a necessidade de não se sentir só, pois a solidão mata e ninguém gosta de morrer, se o puder evitar. O segundo, um pouco mais prosaico talvez, é que a idade já lhe pesava e o pequeno negócio de lavoura de que tirava o seu sustento era demais para uma pessoa só. Se somarmos a isto a falta de habilidade para as lides domésticas, temos reunidas todas as condições para achar lógica a sua decisão.

Primeira grande dificuldade, não é fácil a um homem dessa idade encontrar mulher que esteja disposta a partilhar a sua vida com um velhote a caminho do cemitério, em passo acelerado. A menos que encontre uma viúva de idade aproximada da sua ou uma mulher mais nova em situação desesperada que aceite o casamento como uma tábua de salvação que resolva as suas dificuldades.

E é aqui que os meus pensamentos se tornam, de facto, vagabundos ao mais alto nível. Imaginemos que o encontro não aconteceu em Janeiro, mas no início do verão, quando a barriguinha da grávida já não deixava esconder de ninguém o seu estado. Ah, tenho que acrescentar, aqui, que esta grávida era já mãe solteira de um rapagão de dez anos de idade. E estes dois factos conjugados seriam o trunfo perfeito que o viúvo precisava para ver a sua proposta de casamento ser aceite sem hesitação.

Tenha sido na feira de Barcelos, ou noutro lado qualquer, o facto é que ele tomou conhecimento da existência daquela mulher e, quer tenha sido em Janeiro ou em Junho, grávida ou por engravidar, levou-a de Pedra Furada para Barqueiros, casou com ela e deu origem à família de que eu descendo.

Monte da Franqueira

Subir ao monte da Franqueira e comer uma fatia de melancia era, na minha infância, o maior dos sonhos e só tinha hipótese de acontecer uma vez por ano, no segundo domingo de Agosto. Nem por sombras me passaria pela cabeça que voltaria de novo, ao fim de tantos anos, às encostas do monte da Franqueira, quando encetei esta procura pelos meus antepassados.

Já foi uma surpresa ter descoberto que o pai da minha mãe viveu em Santa Eulália de Rio Covo, embora não tendo lá nascido, nem de lá serem os seus pais. Mas maior surpresa foi descobrir que foi na encosta desse monte que povoa ainda as minhas recordações de infância, na freguesia de Milhazes, que nasceu a mulher que lhe deu a vida. Mas, como em todas as histórias, há um princípio por onde se deve começar. E esse princípio foi um casamento.

E foi no lugar da Malhadoura dessa ensolarada freguesia que do alto do monte fita a Póvoa e o seu mar que, no verão de 1816, António José de Sousa decidiu dar o nó com Antónia Maria, já viúva de um primeiro casamento, criando uma família no seio da qual, cerca de vinte meses depois, viria a nascer uma menina que foi baptizada com o nome de Anna. E além do seu nome de baptismo, nome cristão como lhe chamavam, recebeu também o apelido de Martins. A razão porque este lhe foi atribuído ficará, para todo o sempre, perdida na névoa dos tempos, uma vez que nem o seu pai, nem a mãe e nem tão pouco os seus avós, o usavam.

Desde o dia 23 de Dezembro de 1817, até ao início do ano de 1853, data em que vamos encontrá-la a viver no lugar do Portelo da freguesia de S.Bento da Várzea, nada se sabe do que foi a sua vida. E foi nesta data, já quase no limite do seu período fértil que esta mulher deu à luz o seu único filho. Muito longe da casa dos seus pais e sem um homem que com ela, perante a sociedade, assumisse a paternidade da criança. Vida difícil tinham as mulheres nesse tempo em que a lavoura era o único meio de subsistência das famílias e o primeiro filho varão herdava tudo que os pais deixavam, condenando as irmãs, quando as havia, a uma vida de miséria ou subserviência. Não é de admirar, portanto, que muitas delas partissem à aventura e acabassem com um filho "natural" nos braços e sem um pai que o reconhecesse.

Que motivos teriam levado a minha trisavó Anna de Milhazes para S.Bento da Várzea, estou eu muito longe de adivinhar. Talvez em busca de melhores condições de vida, talvez como criada de servir de alguma grande casa de lavoura que lhe garantisse maior segurança ou, quem sabe, apaixonada por algum rapaz de olhos bonitos que a fez segui-lo até lá. Para o que interessa da minha história, foi aí que deu à luz um rapaz que viria a ser o meu bisavô, João José, de seu nome.

Seguindo o mesmo destino errante da sua mãe, não foi nesta freguesia, mas sim na vizinha de de Santa Eulália que ele viria a encontrar a mulher para se casar, na verdade uma menina ainda, pois tinha apenas metade da sua idade, de quem viria a nascer o meu avô António. Se eu conhecesse a história do que se passou entre eles, talvez pudesse escrever um belo romance. Assim, como não sei, apenas vos posso contar que o seu primeiro filho, a quem puseram o nome de Davide, nasceu três ou quatro meses antes do casamento e adivinho que foi o abade da freguesia que obrigou o pai a prometer que se casaria com a mãe do bebé, para aceitar baptizá-lo. Mas essa é outra história que já aqui foi contada.

Os Araújos do Outeiro

Nomes famosos no lugar do Outeiro foram os «Araújos» e os «Ferreiras». Eu podia ser qualquer um destes dois, mas, em vez disso, herdei um outro que também partilhava a fama com aqueles dois, o de «Alvares» que hoje se escreve Alves e chegou até mim através da linha feminina dos meus ascendentes. O nome de «Souza», trazido de Balazar por uma das minhas avós e que prevaleceu até à minha mãe, apagou o Ferreira que vinha do meu avô Jerónimo, o qual já tinha deixado cair o Araújo do seu avô e bisavó.

A mãe do avô Jerónimo chamou-se Rozália Francisca, quando deveria ter-se chamado Rozália Araújo, uma vez que era filha de António Araújo. Mas parece que era moda herdarem os nomes das mães, pois o nome de Araújo provinha da mãe, Ana e Araújo, e não do pai que se chamava Joam Lopes. Claro que ao usar-se apenas um nome de família, o meu avô Jerónimo só poderia ser Ferreira, filho que foi de Manoel Ferreira, e nunca Araújo.

Nas gerações seguintes, o nome de Ferreira prevaleceu durante uma única geração, pois o meu avô Joaquim preferiu adoptar o Souza da sua mãe. E assim se ficaram os dois famosos nomes do Outeiro fora da minha descendência a partir dessa data. Tudo bem, não vou agora zangar-me por causa disso. Até porque, vendo bem as coisas, com tantos avôs e avós pelo caminho, não sei muito bem qual seria o nome que verdadeiramente teria o direito de usar. A não ser que seguisse o exemplo dos nobres de antigamente e os juntasse a todos depois do meu nome próprio e então chamar-me-ia Manuel de Araújo Ferreira e Alvares de Souza e Silva. Que tal?

Bem, o que de facto fica de tudo isto, é que eu nasci no lugar do Outeiro como aconteceu com a maior parte dos meus antepassados. Por razões que não são para aqui chamadas, a minha avó Maria foi nascer a Barqueiros e a minha mãe a Rio Mau, mas regressaram ambas a Macieira a tempo de a minha mãezinha me dar à luz no sítio onde estavam as minhas raízes, no Outeiro.

E termino esta publicação com a indicação dos meus ascendentes, até à décima geração, uma vez que alguns dos leitores não devem estar a perceber patavina de tudo aquilo que escrevi até agora.

Anna de Araújo, nascida em 1640 (+/-)

António de Araújo, nascido em 1672

Rozália Francisca, nascida em 1715

Jerónimo Ferreira, nascido em 1743

Joze Alvares Ferreira, nascido em 1768

Joaquim Alvares de Souza, nascido em 1817

Euzébia Alves de Sousa, nascida em 1852

Maria Alves de Sousa, nascida em 1890

Rita Alves de Sousa, nascida em 1916

Manuel Alves da Silva, nascido em 1944

Outra vez na Lagoa Negra

Como já vos contei, a minha bisavó Eusébia emigrou de Pedra Furada para Barqueiros, levando consigo o seu filho de dez anos de idade, para se casar com o velho Agostinho que tinha perdido a sua Jozefa e não estava na disposição de passar o resto da sua vida sozinho. Desse casamento nasceu a minha avó Maria, cuja história já aqui foi contada também. Mas, hoje, vou seguir por outro caminho e falar-vos do rapaz de dez anos de idade que, no ano de 1890, se viu a viver numa terra estranha e no meio de pessoas que não conhecia de lado nenhum.

Não tinha reparado ainda, mas as duas assinaturas que aparecem no assento de baptismo do tio Carlos (deixem-me chamar-lhe assim, uma vez que sendo irmão da minha avó tem direito a esse tratamento) levam-me a supor que há laços de família muito estreitos entre a mãe do baptizado, o padrinho e o pároco e que deve ter sido essa a razão que a levou de Macieira para Pedra Furada para ali dar à luz e criar o seu rebento nascido sem pai que se conhecesse.

Mas esse é um capítulo que pertence ao passado e hoje quero falar do futuro, quero dizer, dos anos após a sua chegada à Lagoa Negra. Não posso garantir que assim tenha sido, mas imagino que o tio Carlos passou a ser uma espécie de criado para todo o serviço em casa do seu padrasto Agostinho. Com dez anos de idade já completos, não quero crer que se tenha posto a hipótese de o matricular na Escola Primária para aprender a ler e a escrever. A vida era dura, naqueles tempos, e é quase certo que o velho noivo da minha bisavó se regia por aquele princípio que rezava assim - em casa dest'home quem não trabalha não come.

Não admira, portanto, que o tio Carlos tivesse uma certa pressa de se casar e tratar de formar a sua própria família, coisa que veio a acontecer no ano em que completou vinte e dois anos de vida.

As Páscoas

Embora de difícil leitura, aqui vos deixo o respectivo assento de casamento, onde se pode ver o nome e a idade da noiva, Maria Fernandes Páscoa, de trinta e três anos de idade que, tal como o noivo, é também filha de mãe solteira, nascida e baptizada na freguesia de Barqueiros.

Para não tornar este capítulo longo demais, vou deixar de fora a descendência do tio Carlos, a que voltarei mais tarde, e terminar com uma imagem mais, a do assento de óbito da mãe da noiva, referida aqui acima, que tendo ocorrido no ano anterior ao do casamento me leva a supor que foi uma razão mais a concorrer para que o casamento acontecesse. Como se pode ler no documento que a imagem nos mostra, também a defunta era, tal como a sua filha, filha de mãe solteira. Um ciclo que só a neta Maria, ao casar-se com o tio Carlos, interrompeu.

E assim ficamos também a saber qual a origem do nome Páscoa que eu julgava ser uma alcunha usada pelas sobrinhas da minha avó Maria. Herdaram o apelido Fernandes, do lado da mãe, e o Sousa, do lado do pai, e o Páscoa da mãe e avó perdeu-se para todo o sempre.

Ditos, escritos e correcções

Começo por dizer que um blog é como um jornal diário, o que é verdade num dia é mentira no dia seguinte e nunca se pode alterar aquilo que já foi escrito. Verdade ou mentira está dito e lido por quem quis e só uma posterior notícia poderá alterar isso. E falo nisso porque algumas coisas que vou escrever de seguida estão em contradição com outras que escrevi antes. Como diz o outro, esquece o passado que o presente é que conta.

Já sabem o que penso do Sr. Agostinho e da D.Jozefa, sua esposa, mas o que realmente nos interessa é a história dos filhos da bisavó Eusébia e é disso que vamos tratar. Com vinte e oito anos de idade, nasceu-lhe o primeiro filho, Carlos, na freguesia de Pedra Furada. Por causa do seu casamento com o viúvo Agostinho, ela foi viver para Barqueiros e, como não podia deixar de ser, levou consigo o filho que tinha, à data, dez anos de idade. Lá nasceria, alguns meses mais tarde, a minha avó Maria, mas não é dela que vou falar agora.

Com vinte e dois anos de idade, o Carlos arranjou noiva, em Barqueiros, e casou-se. Desse casamento nasceram quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. Como podem ver pelas cópias dos assentos de baptismo que publico abaixo, em primeiro lugar nasceu o Manuel, no ano de 1903. Dos quatro irmãos foi o único que se casou e constituiu uma família tradicional. O meu azar é que fez isso no Brasil e só tomei conhecimento disso pelo relato que me fez o António, único resistente a morar ainda em Barqueiros. Casou com uma mulher espanhola, de apelido Gutierrez, teve filhos e tem netos, pois um deles apareceu em Barqueiros, há meia dúzia de anos, a perguntar pelos seus antepassados.

O segundo a nascer foi o Mateus, no ano de 1905, rapaz azarado que foi à procura de melhor vida em França e lá encontrou a morte, soterrado nas obras do Metro, em Paris.

Nascidos os dois rapazes, chegou a vez das raparigas e a primeira nasceu no mês de Março de 1908, a Rosa, que nunca se casou nem teve filhos. Tratou do pai até à morte e ajudou a irmã Maria a criar o seu filho António que nasceu no mês de Fevereiro de mil novecentos e quarenta e quatro.

Por último nasceu a Maria, no mês de Abril de 1911 e foi registada no novo sistema, instaurado pela República Portuguesa para vigorar a partir do dia um de Abril desse mesmo ano. Por essa razão não posso apresentar a cópia do seu assento de baptismo, por não ser público como os anteriores registos paroquiais que foram entregues no Arquivo Distrital de Braga e, aos poucos, estão a ser publicados na internet. Dela nasceu o António, atrás referido, filho de pai incógnito e que é o único familiar vivo, desse ramo da família, a viver em Portugal.

Se um dia vier a descobrir por onde andam os descendentes do Manoel Fernandes de Sousa e da D. Gutierrez, cá virei de novo para acrescentar mais um capítulo a esta história que tenho andado a desenterrar da melhor maneira que posso.

Os Rissos

Viajando através dos registos paroquiais do Século XVIII e XIX são tantos os casos de filhos naturais, que é o mesmo que dizer, filhos de mães solteiras, que até dá vertigens. E se se consultar o registo de baptismos da «Villa de Barcellos», metade refere-se a crinças deixadas na Roda. Um verdadeiro pandemónio para quem procura determinar as suas raízes. Descobrir quem foram os antepassados do avô Francisco José nunca me interessou muito, por saber que, embora tenhamos herdado o seu nome, não herdamos os seus genes. Por mero acaso, ou talvez não, descobri que a nossa relação de parentesco com os "Rissos" de Gueral se deve, exactamente ao avô Francisco ou, melhor dizendo, à sua mãe Maria das Dores. Mas comecemos pelo princípio.

No início do Século XIX, na freguesia de Gueral, do concelho de Barcelos, nasceu uma menina que recebeu o nome de Maria da Anunciação. Por falta de alguns documentos, além do interesse reduzido que o assunto me desperta, não consegui estabelecer o historial completo dessa personagem, mas para o que interessa à nossa história, descobri que também ela entrou para o rol das mães-solteiras ao dar à luz uma menina, a quem baptizou com o nome de Maria das Dores.

E como a coisa parece uma doença hereditária, também a Maria das Dores viria a dar à luz um rapazinho, sem marido que se lhe conhecesse. Francisco foi o nome escolhido para o baptizar. O segundo nome, José, talvez tenha sido escolhido pela mãe em honra do incógnito pai que não quis aparecer em público. E o apelido, Silva, só Deus saberá de onde veio.

As voltas que o mundo dá e que eu, hoje, sou incapaz de adivinhar fez com que a Maria das Dores descobrisse um homem que quis casar com ela e a ajudasse a criar o seu rebento. E desse casamento tenha nascido uma menina que, na Pia do Baptismo, recebeu o nome de Rita.

Pois foram estes dois meios-irmãos que, ao casar-se, ele com a minha avó Ana, ela com o avô, Carlos, dos Rissos de Gueral, nascido na freguesia de Fragoso, criaram os laços de parentesco que tanta estranheza me causavam por não compreender de onde vinham. A descendência da avó Ana já nós conhecemos, a do Carlos que casou com a Rita da Silva (até onde eu consegui descobrir) consta de três rapazes, Armindo, José e António e duas raparigas, Maria e Ana.

O mais novo de todos eles foi o António que viveu a sua vida em Macieira e tem lá filhos a morar ainda, assim como netos e bisnetos espalhados por esse mundo fora. A Maria Rissa, salvo erro, nunca se casou nem teve filhos. Nasceu em 1902, faleceu em 1981 e era a prima preferida do meu pai. Na próxima vez que passar no cemitério de Gueral, hei-de tentar descobrir se tem uma campa identificada.

Francisco Canano

Depois de ler e reler o post que publiquei ontem, uma coisa houve que começou a fazer-me desconfiar que houve malandrice na atribuição do nome José e do apelido Silva ao meu avô Francisco. Registado como filho de pai incógnito, eu ainda entenderia que a mãe tivesse querido dar-lhe um segundo nome e a sua escolha recaísse em José, mas o Silva é que não tinha lógica nenhuma.

De repente, ao ler pela segunda ou terceira vez o registo de nascimento da sua meia-irmã Rita, acendeu-se uma luzinha no meu cérebro e percebi tudo. Com um nome como aquele, António José da Silva, só podia ser ele o incógnito pai que, no ano de 1863, fugiu à sua responsabilidade e três anos mais tarde decidiu reparar o seu erro e casar com a desonrada mãe do Francisco que era seu filho. E assim a Rita que nasceu no ano seguinte, já dentro do casamento é, afinal, irmã de pai e mãe do meu avô.

Só que devem ter-se esquecido de legalizar o acto de perfilhação, ou então fizeram-no mas eu não encontrei o documento que o comprove. Ou, em última análise, sou eu que estou a sonhar com bruxas e nada disto corresponde àquilo que se passou naquele longínquo ano de 1867, na freguesia de Gueral.



Um apelido e peras

O que pensariam vocês se dessem de caras com o nome «Caravana Montes», ao vasculharem os registos históricos dos vossos antepassados? Uma caravana de ciganos viajando de terra em terra por montes e vales debaixo do sol e da chuva que Deus nos deu a todos por igual, foi a imagem que me atravessou o pensamento quando descobri que era este o nome de uma das minhas bisavós do lado materno.

Como todas as coisas deste mundo, também os nomes têm que ter um princípio. Quem teria sido a primeira pessoa a usar o apelido de Caravana, e porquê? Mergulhando a fundo nos registos paroquiais, baptizados, casamentos e óbitos, que é a única fonte de informação que existe sobre a gente comum, talvez consiga responder à primeira parte da pergunta. Já a questão do porquê, acredito que ficará para sempre escondida na penumbra dos tempos.

Com esse propósito atirei-me com vontade aos livros da «Villa de Barcellos», assim chamada no tempo em que os pais da minha bisavó aí viviam, para minha grande surpresa que sempre tive Barcelos como cidade, desde os tempos de D. Afonso Henriques. No tempo em que os mouros ainda ocupavam Lisboa e Santarém, Barcelos era a quarta cidade do Condado Portucalense, depois do Porto, a capital económica, Braga, a capital religiosa e Guimarães, a residência oficial da monarquia reinante.

Quem escrevinhava os registos, nesse tempo, não era muito cuidadoso nem seguia uma norma fixa que agora nos ajudaria a decifrar mais facilmente aquilo que a sua falta de jeito, a qualidade do papel ou da tinta teima em esconder nesses documentos. A minha esperança nos registos de baptismo era quase nula, devido à profusão de registos de filhos sem pai nem mãe expostos na «Roda de Barcelos». Há páginas e páginas onde só aparecem registos desses, nem um único filho legítimo se avista no meio de tantos “expostos”. Um dia destes ainda vou ganhar coragem para fazer uma estatística de bebés baptizados durante um ano inteiro para ver qual a percentagem de filhos legítimos conseguida.

Optei, por isso, pelos registos dos casamentos. Com um pouco de sorte, além dos pais dos noivos, talvez tivesse também os nomes dos avós e assim já seriam dois degraus na escada que eu pretendia subir. Tive mais sorte do que eu próprio esperava. Ao fim de pouco mais de uma hora a virar páginas, coisa que na “net” é um tanto ou quanto lento, descobri-o.

E cá está! Como podem ver António Joze era o filho e Manoel Joze era o pai e para ambos o mesmo apelido, Caravana. Depois verei se ganho coragem para recuar mais no tempo e descobrir o registo de casamento do Manoel Joze, para chegar ao seu pai e avô.

Como curiosidade, noto os dois nomes dos locais onde moravam os noivos, Campo dos Touros para ele e Campo de S. Joze para ela. Onde ficariam esses lugares, olhando para a cidade de hoje?

A noiva menina

Ao descobrir que tinha lido mal o assento de casamento da avó Rozália, mãe do avô Jerónimo, que pensei ser 1737, mas era afinal 1727, criei um problema que me tem feito perder muito tempo. Mas como podia ela casar em 1727 se tinha nascido em 1715 e era, por conseguinte, uma criança de 12 anos? Com toda a certeza me tinha enganado ao tomar nota dos nomes das gerações mais novas e tinha ido parar a um beco sem saída.

Para sair desta dúvida só tinha um caminho a seguir, voltar ao princípio e reconstituir toda a árvore genealógica da família, a partir da minha bisavó Eusébia. E lá fui seguindo o caminho, sempre com muito cuidado para não escorregar para fora da pista, pai Joaquim, avô José, bisavô Jerónimo, este filho de Rozália Francisca de Araújo (o apelido de Araújo raramente aparece nos documentos, mas tem razão de ser uma vez que era filha de António de Araújo), nascida em 1715, casada em 1727 e que em 1733 deu à luz o seu primeiro filho, de seu nome António, dez anos antes do Jerónimo, de quem descendemos nós os filhos da Tia Rita da Eusébia.

O ter engravidado só depois de completar os seus 17 anos dá um certo ar de veracidade a esta história. Aqui chegado, admitindo, portanto, que não há erro na identificação das personagens, eu vejo a história assim. No ano de 1722 veio de Balazar o Manoel Alvares casar com uma filha do Manoel Gonçalves do Outeiro. O Manoel Ferreira que se casou com a Rozália era filho de Miguel Alvares de Gueral e uma geração depois, foi o Jerónimo, neto de Miguel Alvares a ir procurar noiva, em Goios, e quem foi ele escolher? Maria Alvares, pois claro.

O que estou a tentar dizer, mas não consigo provar, pois para isso teria que revirar do avesso os registos paroquiais de meia dúzia de freguesias, é que havia interesses económicos em jogo e que estes Alvares eram todos familiares entre si e iam casando os seus filhos, primos com primos, para manterem, ou aumentarem, as posses da família. E desse modo, a Rozália foi prometida legalmente ao filho de Miguel Alvares, o qual veio morar para o Outeiro, no ano de 1727, juntando-se ao seu primo Manoel que o tinha já feito cinco anos antes. Talvez um dia eu volte ao assunto, se conseguir descobrir o fio desta meada.

De volta à Lagoa Negra

A última vez que falei na Lagoa Negra foi para comunicar que a primeira mulher do nosso bisavô Agostinho morrera sem deixar filhos e portanto não havia mais descendentes que o «Tone da Lagoa Negra», este descendente da segunda mulher, a nossa comum bisavó Eusébia.

Mas, afinal, estava enganado. Houve e deve haver ainda outros primos por lá perdidos de que nunca tínhamos ouvido falar. Nas minhas incessantes pesquisas descobri que a minha bisavó não foi a primeira da família a "emigrar" para a Lagoa Negra. Antes dela, o seu irmão Luís, dez anos mais novo, contraiu matrimónio com uma senhora chamada Maria Dias que, ou muito me engano, ou seria irmã do acima referido Agostinho.

Este casamento aconteceu em Junho de 1884, data em que a nossa bisavó Eusébia vivia sossegadinha da vida, na freguesia de Pedra Furada, com o seu filho Carlos que contava, nessa data, nada mais que 4 anos de idade. Assim, os dois irmãos Dias moravam na Lagoa Negra, ambos casados, o Agostinho com a Jozefa de Sá oriunda da freguesia de Palme e a Maria com o Luís Alves de Souza oriundo de Macieira.

No ano de 1888, acontece a fatalidade de morrer a mulher do Agostinho deixando-o sem filhos e já com a bonita idade de 63 anos. A sua irmã Maria (?) já contava, nesse tempo, com dois filhos, a Maria e o Francisco, nascidos do casamento com o nosso tio Luís. Acredito que a vontade de ficar com o encargo de cuidar do seu irmão, até que a morte o levasse, não devia ser muita e deve ter aproveitado (isto agora sou eu a imaginar o que poderia ter acontecido) a oportunidade de lhe apresentar a sua cunhada Eusébia, mãe solteira e a precisar de quem a ajudasse a criar o filho de 8 anos de idade. Mulher ainda nova, nem os 40 anos tinha feito, deve ter sido uma proposta que não custou grande coisa ao Agostinho aceitar. E o casamento veio a realizar-se em meados do ano de 1890.

Mas voltando ao tio Luís, pois é por causa dele que estou a escrever esta notícia, casou em 1884, com apenas 21 anos e foi viver para a Lagoa negra. Tanto quanto consegui descobrir, teve 5 filhos, a Maria, o Francisco, a Ana, o Fernando e a Rosa, exactamente por esta ordem. Esta última morreu com 5 meses de idade e, por isso, a sua história termina aqui. A Maria morreu em Maio de 1951 e muito me admira de nunca ter ouvido a nossa avó Maria falar dela, uma vez que era sua prima direita e quase da mesma idade. A Ana, 4 anos mais nova que a Maria, morreu no mesmo mês e ano em que eu nasci, Março de 1944, com 55 anos de idade. Do Francisco e do Fernando não encontrei qualquer registo, o que pode ser explicado pelo facto de terem casado para fora da freguesia. Morrido acho que não, pois pesquisei até 1911 e não encontrei o registo de óbito de qualquer deles. E depois de 1911 não há documentos para consultar.

Destes 4 irmãos que viveram na primeira metade do Século XX, é quase impossível que não tenham ficado descendentes. Quando for a Barcelos vou pedir os registos dos óbitos da Maria e da Ana que sei terem morrido em Barqueiros e conheço as datas, para ver se lá consta qualquer informação que me guie.

A ignorância é uma coisa que dói!

Os Caetanos

Assim como não sabia pelo lado de quem os Rissos eram meus primos, também nunca ninguém me soube explicar o porquê de o António Caetano, visita assídua na casa do meu pai, ser tratado por nosso primo. Saturei-me de viver na ignorância e fui à procura das respostas. A história dos Rissos já aqui vos contei. Hoje, é a vez de saberem quais os laços que nos ligam aos Caetanos.

A história começa nos últimos anos do Século XVIII, em S. Julião do Freixo, freguesia do concelho de Ponte de Lima, onde uma criança do sexo masculino é abandonada à porta de um lavrador que a manda baptizar e se encarrega de a criar até esta se transformar num adulto e tomar conta do seu destino. E o destino do Manoel José, esse foi o nome que recebeu no baptismo, levou-o até Macieira, onde encontrou a mulher da sua vida e se casou.

Chamava-se Ana Maria a mulher que viria a juntar ao seu o destino do Manoel José. Nascida na freguesia de Courel e já sem pai nem mãe que a ajudassem a singrar na vida, encontrou em Macieira um trabalho que lhe garantia o sustento e por lá se deixou ficar até o seu destino se cruzar com o de Manoel José. No dia 14 de Fevereiro de 1820 apresentaram-se na presença do pároco da freguesia, José Joaquim Soares da Costa, que os casou e abençoou.

Nos finais desse ano de 1820, nasceu a primeira filha do casal, Maria Isidória de seu nome. Cerca de 2 anos mais tarde nascia o seu irmão Manoel. Nesse tempo vivia em Macieira um tal Manoel Caetano Ferreira que veio a ser o padrinho destes dois irmãos. No princípio das minhas investigações pensei ser ele o pai deste Manoel, nascido em 1822, mas depressa perdi essa convicção, porque tendo casado em 1796, este Manoel Caetano teve apenas uma filha, nascida no ano de 1800, a que chamou Maria Vitória.

O facto de o Manoel José, vindo de S. Julião do Freixo para Macieira, também se chamar Ferreira pôs a minha imaginação a funcionar e já via pais incógnitos e tios escondidos nesta história da criança abandonada que não tinha pai nem mãe que se conhecesse. E tudo isso pode ser, mas o único facto provado é que mal o Manoel José Ferreira apresentou a sua filha Maria Isidora na Pia Baptismal, foi o Manoel Caetano Ferreira quem lhe deu as bençãos de padrinho. E o mesmo aconteceu quando foi baptizado o Manoel, segundo filho do Manoel José. Uma relação muito forte, ou então um parentesco escondido podem ser a explicação para este duplo apadrinhamento.

O facto é que este rapaz, nascido e baptizado em 1822, ficou a chamar-se Manoel Caetano Ferreira, tal e qual como o seu padrinho. Por esse tempo não era costume as mulheres usarem apelido, eram tratadas, simplesmente, pelo seu nome de baptismo. Se assim não fosse, a irmã do Manoel chamar-se-ia Maria Isidória Ferreira.

Chegados a este ponto, estamos em presença das duas personagens que deram origem, na freguesia de Macieira, a duas famílias distintas que foram evoluindo em sucessivas gerações até aos dias de hoje. No ano de 1842, a Maria Isidória casou com Joaquim Alvares de Sousa, união de onde nasceu a minha bisavó Eusébia. E no ano de 1847, o seu irmão Manoel casou com uma rapariga de Pedra Furada, de seu nome Brízida Joaquina, ficando a viver, tal como a sua irmã, no lugar do Outeiro.

A Maria deu à luz 11 filhos, entre 1843 e 1862, enquanto a sua cunhada Brígida pariu 13 filhos, entre 1848 e 1869, começando logo com um par de gémeos, José Maria e António Maria. De um e outro lado, houve filhos que não atingiram a idade adulta e, coisa curiosa, a Maria queria um Rodrigo e só ao terceiro conseguiu que ele sobrevivesse. Também a sua cunhada queria ter uma filha com o nome de Maria e morrendo-lhe a primeira baptisou uma segunda com o mesmo nome que acabaria por morrer também. Só em 1863, já quase no fim do seu período fértil, teve outra menina a quem voltou a dar esse nome. E como diz o ditado, às três é de vez, essa sobreviveu.

A geração da Maria, no que a mim diz respeito, já foi aqui devidamente explicada (Maria-Eusébia-Maria-Rita). Quanto aos Caetanos, basta-me saber que os 13 filhos do Manoel Caetano eram primos direitos da minha bisavó Eusébia. Se soubesse o nome dos pais do António Caetano que era visita da casa do meu pai, facilmente descobriria as suas origens e o real parentesco que tinha com a minha mãe, mas isso para o caso já pouco interessa.

A história continua

Afinal não demorei muito a descobrir o nome do pai do «Tone Caetano», chamava-se João e era filho do António, este nascido em 1852 e quarto filho do primeiro Caetano, o Manoel.

De um outro blog que conta a história de muita da gente de Macieira, transcrevo este pequeno excerto que explica aquilo que vinha aqui dizer:

«O quarto desses filhos, de seu nome António, nasceu em 1852, vindo a casar em 1880 com Bernarda Martins de Lemos, ficando a morar no lugar do Picoto, e juntos deram ao mundo (e a Macieira) 8 filhos. O primeiro desses filhos chamava-se João, nascido no ano de 1881 e que, no princípio do Século XX viria a casar com Maria da Conceição, nascida em 1887, no lugar do Rio. Desse casamento nasceu o meu primo António que se casou com uma rapariga da Casa do Novais e ambos são já defuntos, sem terem deixado descendência.

O Tio Luis

De raciocínio em raciocínio tinha chegado à conclusão que a Maria Dias que casou com o meu tio Luís era irmã do Agostinho Dias que casou com a sua irmã (e minha bisavó) Eusébia. Com tantos Dias em Barqueiros e dois irmãos vindos de Macieira de Rates que ali foram casar com dois Dias, era fácil pensar que se tratava de dois irmãos também. Mas, de facto, não era assim e só depois de ter descoberto que a primeira mulher do Agostinho Dias viera da freguesia de Palme, na zona norte do grande concelho de Barcelos, é que encontrei o caminho da verdade.

Os pais do Agostinho Dias que casou com a minha bisavó eram Domingos Gomes Dias e Maria Antónia. Por outro lado os pais da Maria Dias que casou com o irmão da minha bisavó eram José Francisco Dias e Roza Barboza.

O desaparecimento dos livros dos Registos Paroquiais da freguesia de Barqueiros, do ano de 1750 a 1850 (datas aproximadas) não me permite fazer todas as pesquisas como eu gostaria, o que me leva a incorrer neste tipo de erros.

Os descendentes do tio Luís usaram o apelido de Dias de Sousa e já consegui saber que dois deles morreram sem deixar descendência, mas nada descobri ainda quanto aos outros dois. Pode ser que um dia o consiga ainda descobrir.

Os Alvares do Outeiro

Durante o Século XVIII houve, no lugar do Outeiro, uma família de apelido Alvares que não tem ligação directa com a nossa. Lembro-me de alguns documentos que me passaram pelas mãos, em que se falava de Balazar, mas não tenho memória exacta disso. Talvez um dia me decida investigar isso em pormenor e consiga descobrir se havia ou não algum parentesco. Havia também os Alvares de Negreiros, avós do nosso avô Jerónimo, mas também esses não são para aqui chamados.

Como se vê na imagem acima, foi a Maria Alvares da Silva, ao casar-se com Jerónimo Ferreira que trouxe para Macieira o apelido de Alvares e o transmitiu ao seu filho José e este ao seu filho Joaquim e este à sua filha Eusébia que depois o passou à sua filha Maria e à sua neta Rita, fazendo-o chegar até nós. Eusébia foi a primeira da nossa linhagem a substituir o Alvares por Alves.

Bento Alvares, do lugar de Real da freguesia de Pedra Furada, está na origem desse apelido. No ano de 1740, a sua filha Maria casou com José da Fonseca, de Goios, freguesia onde ficaram a morar e onde, no ano de 1744, nasceria a sua filha Maria que viria a casar-se com o nosso avô Jerónimo e vir morar para o lugar do Outeiro, onde a nossa família permaneceu até ao ano de 1960.

A freguesia de Pedra Furada foi, por conseguinte, uma referência para os nossos antepassados e por alguma razão a nossa bisavó Eusébia se foi lá refugiar, quando se viu grávida do primeiro filho. Mais tarde viria a casar com um viúvo de Barqueiros, freguesia onde nasceu a nossa avó Maria, no ano de 1890. Alguns anos depois de enviuvar, quis regressar a Macieira, de onde tinha saído com 28 anos de idade, e com ela foram também a filha, Maria, e a neta, Rita, esta nascida entretanto na freguesia de Rio Mau.

Fiz uma investigação a fundo a todos os Alvares que aparecem nos Registos Paroquiais de Macieira e encontrei duas mulheres com o mesmo nome, Maria Alvares da Silva, que merecem um estudo mais aprofundado. A primeira csaou-se em Agosto de 1757, morava no lugar de Travassos e era filha de pai incógnito, o que não permite levar as pesquisas por diante. A segunda veio de Goios, depois do casamento com o nosso avô Jerónimo, em 1764.

Antes delas, houve um Manuel Alvares que veio casar a Macieira, em 1722, mas era de Balazar e para lá deve ter levado a mulher, pois não aparece qualquer registo de filhos seus na nossa freguesia. E depois delas, na última década do século XVIII, aparecem dois homens com este apelido. Um deles é filho de Simião Martins, do lugar de Modeste, e não sei de onde lhe veio o apelido Alvares, sendo o pai Martins e a mãe Costa. O outro era de Arcos, casou-se e ficou a viver em Macieira.

Diria, por conseguinte, que a nossa avó Maria Alvares da Silva, vinda de Goios, filha da Maria Alvares da Silva e neta de Bento Alvares da Silva, de Pedra Furada, são aqueles a quem se deve a introdução do nome, na freguesia de Macieira. Do seu casamento com o avô Jerónimo nasceram 7 filhos que usaram o apelido de Alvares Ferreira e o transmitiram aos seus descendentes, como é o meu caso.

Termino este relato deixando, aqui abaixo, as imagens dos vários registos que comprovam aquilo que acima deixei escrito (imagens no blog do Sapo).

Duzentos anos mais nova que eu e com algumas particularidades que me dão que pensar, a nossa avó Maria (Alvares da Silva), em 22 de Junho de 1764, casou-se com o avô Jerónimo e mudou-se do lugar do Outeiro de Goios, onde nasceu, para o lugar do Outeiro, de Macieira, onde criou a família em que eu viria a nascer, muitas gerações depois, em Março de 1944.

Reparem agora no nome da mãe, do padrinho e pároco de Goios e da testemunha, pároco de Pedra Furada. É tudo família! Não me vou dar ao trabalho de pesquisar qual a relação familiar entre eles, basta-me saber que eram todos meus familiares, oriundos do lugar do Outeiro, da freguesia de Goios. E também que houve uma grande linhagem de padres com o mesmo apelido que duraram até ao ano de 1880, altura em que a minha bisavó Eusébia ali foi parir o seu filho de pai incógnito, talvez com vergonha de o fazer em Macieira. Protecção familiar com ajuda divina, digo eu!

O Tone Picareta

Na reunião de família acontecida ontem, perguntaram-me qual o parentesco entre nós, os descendentes da ilustre Helena Maria de Sousa, e os Caetanos de Macieira, cujo representante e nosso contemporâneo, o António, era visita habitual na casa dos nossos pais.

No esquema acima aparece uma Maria Isidória que viria a casar com o nosso trisavô Joaquim Alvares de Sousa. Pois essa Maria Isidória tinha um irmão chamado Manuel que herdou os apelidos de Caetano (de um homem de Macieira que suspeito seja seu avô) e Ferreira do seu pai (e também do suposto avô que se chamava Manuel Caetano Ferreira).

O Manuel José Ferreira, pai da Maria Isidória, foi registado como filho de pais incógnitos e criado por caridade numa paróquia de Ponte de Lima. No entanto, as investigações que fiz levam-me a crer que o seu verdadeiro pai é Manuel Caetano Ferreira que o trouxe para Macieira e ali o casou com uma rapariga de Courel, quando atingiu a maioridade.

Esta é a explicação mais plausível para o facto de o primeiro filho varão de Manuel José Ferreira ter sido registado com o nome de Manuel Caetano Ferreira e que foi o percursor da família dos Caetanos de Macieira que ainda hoje existe.












Ana Canana!