2024-11-23

Coincidências!

A Quinta do Passeia
O lugar de Real de Cima
A Tia Clemência dos trapos
A Bisavó Eusébia e o padre que lhe baptisou o filho.

Nos meus primeiros anos de vida, acompanhei a minha mãe em várias deslocações que ela ela obrigada a fazer, por razões que agora pouco interessam. Uma mulher sozinha a deambular por caminhos pouco frequentados podia ser uma tentação para qualquer mânfio que andasse por ali "à pesca". A presença de uma potencial testemunha fazia-lhe passar a vontade de incomodar a passante.

Numa dessas deslocações fomos ao lugar de Real de Cima, a casa da Tia Clemência, uma senhora que negociava em "trapos" que a minha mãe usava para confeccionar tudo e mais alguma coisa que depois vendia às suas clientes, ou na feia de Barcelos. Eram retalhos de chita de que fazia blusas e aventais, além de outras coisas mais miúdas. E também retalhos de panos brancos de diversos tipos que davam para tudo e mais alguma coisa, até para cuecas de homem ou senhora, pois nesse tempo ainda não existiam fábricas de malha a fazerem aquilo que hoje se usa.

Outra vez fui com o Armando da Tia Amélia à Quinta do Passeia, de que o seu filho Daniel era o feitor, buscar uma série de tralhas que sobravam num lado e faltavam no outro. Fomos num carro de bois - que no caso era puxado por duas pobres vaquinhas que depois de ir ao lugar de Real de Cima e voltar ficavam com a língua de fora - que não faço ideia a quem pertencia, pois a Tia Amélia não tinha gado nem sequer um carro a que pudesse atrelar uma junta de vacas.

Ao fazer este relato, lembro-me que nas minhas andanças por casa dos lavradores aprendi o nome dessas coisas todas e de como se preparava uma junta de bois (ou vacas) para atrelar ao carro. Aprendi, além disso, os nomes das partes do carro, a começar no rodado, depois a cabeçalha, o pigarro e a chavelha, sem esquecer as caniças, os fueiros e todo o resto. Aprendi a pôr o jugo, depois dos arcos, e travá-lo com as partizelas para que se segurassem no pescoço dos animais. E depois, fazer as vacas andar de marcha-atrás, até a cabeçalha do carro entrar no suporte do jugo.

Quando li, no assento de baptismo do nosso tio-avô Carlos que a sua mãe morava no lugar de Real de Cima, da freguesia de Pedra Furada, quando ele nascera, tudo isto me veio à mente e sempre tive intenção de o escrever para ficar registado para "quem atrás vier". Pois, chegou hoje o dia de o fazer. Uma outra coisa que me chamou a atenção nesse registo, foi o nome do pároco e do padrinho

Um pensamento atravessou a minha mente, tal como uma estrela cadente a rasgar o céu numa noite escura. Luiz Alves de Sousa era o irmão mais novo da mãe da criança e o pároco, pelo nome que tinha, só podia ser da família também. Lembro aqui que a bisavó da criança ali baptisada se chamava Maria Alvares da Silva, apelido que foi de Pedra Furada para Góios, ou vice-versa, passando depois para Macieira, lá ficando até que eu nasci.

Chegado a este ponto, dei-me ao trabalho de consultar os livros dos Registos Paroquiais para descobrir de quando e até quando esteve o Padre António Alvares da Silva à frente dos destinos da freguesia. Acima, podem ver o primeiro assento de baptismo assinado por ele, em Pedra Furada. Nessa altura assinava ainda como Presbítero (que é uma espécie de estagiário), provavelmente o seu primeiro emprego, depois de cantar missa.

E neste outro, o seu último, o adeus à freguesia que paroquiou por longos 54 anos. Nessa altura, já o Carlos, filho da Eusébia, tinha 11 anos e morava na Lagoa Negra, juntamente com a sua mãe que se casara, um ano antes. Além do seu padrinho, o Tio Luiz, que foi o primeiro a ir para a Lagoa Negra, tendo lá casado e depois desencaminhando a sua irmã para fazer o mesmo com um seu vizinho que tinha enviuvado, havia pouco tempo.

Alguma coisa motivara a minha bisavó Eusébia a refugiar-se naquele lugar. Ou ligações familiares com o pároco ou a ligação a uma propriedade da família ali existente. Ninguém me tira da cabeça que a Quinta do Passeia, de que o filho da Tia Amélia era feitor, pertencia a um neto do avô Jerónimo que pelo casamento com a Maria Alvares da Silva vinha a ser parente do Padre António. Como diz o ditado, há muitas Marias na Terra, e eu posso estar a imaginar coisas, mas para mim isto anda tudo ligado!

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Ana Canana!