É mentira que ela fosse do Jerónimo, quem era do Jerónimo (bisneto, salvo erro) era o seu marido António Alves de Sousa que depois de nascer o Armando se mandou para o Brasil e nunca mais se ouviu falar dele. Já ouvi dizer que ele arranjou por lá mulher e teve mais uma catrefada de filhos "brazucas", mas isso está por provar. Para normalizar as coisas, teve o tal Armando que recorrer ao tribunal para transformar o desaparecido em falecido que já tinha ultrapassado os cem anos de idade.
A minha família morava na parte mais a norte do lugar do Outeiro e os vizinhos eram poucos, por isso havia uma grande ligação entre todos. Do lado sul a família do Velho e a do Couto, cujos quintais confrontavam com o campo (de baixo) do Loureiro, onde se inseria a casa onde eu nasci. Do lado norte era quase tudo família, primeiro a tia Rosa e depois a sua cunhada Amélia ambas do Jerónimo e, por conseguinte minhas parentes. A última casa ora estava vazia ora ocupada, a mais antiga família que lá conheci tinha consigo dois refugiados - austríacos, salvo erro - que se chamavam Monique e Gilbert, mais tarde ocupada pela família "Da Antónia" vinda de Gueral.
Muitas aventuras poderia contar destes filhos da Antónia - nome que deviam ter herdado de alguma avó, pois a sua mãe não tinha este nome - que eram 3 rapazes e 1 rapariga, a Maria que eu viria a encontrar, anos depois, como criada da família do Couto. Falei com ela no verão de 1960, antes de a minha família se mudar para o Anjo, e depois, como muitas outras pessoas e coisas, esfumou-se da minha vida. Não sei se ela é ainda viva ou se já faleceu. Mas, por acaso, gostaria de saber!
Mas, voltando à tia Amélia que pertencia à família dos meus antepassados, ela morava numa casinha, hoje em ruínas, que foi construida num recanto da bouça do Loureiro que existia encostada à Quinta do Arteiro. Quinta que no passado não pertencia à família do Loureiro, de Gueral, mas que foi depois comprada e anexada aos terrenos que já lhe pertenciam. Quando se casou, a tia Amélia ficou a morar na casa onde eu também nasci, depois, por razões que desconheço, o Loureiro ofereceu-lhe aquele recanto da bouça que tinha pouco interesse para a agricultura, mas uma posição ideal para construir uma pequena casinha.
E assim ficou vazia a «Casa da Rita» (como é hoje conhecida), o que deu ao meu pai a oportunidade de a arrendar, quando se casou. Aquilo está uma ruína com o telhado a cair, disse-lhe o Loureiro. Não lhe dê isso preocupação, respondeu o meu pai, eu arranjo aquilo ao jeito de lá poder instalar a minha mulher e a sogra, pois melhor lugar não encontrei. E assim aconteceu, durante 21 anos moraram ali os meus pais, a minha avó Maria e mais os 11 filhos que a minha mãe, nesse período, deu à luz.
Ali passei eu os primeiros 11 anos da minha vida, a saltitar da casa da tia Rosa para a da tia Amélia e dessa de volta para a nossa (?) casa, o resto passei-os a andarilhar por esse mundo de Deus, primeiro em Coimbra e na Póvoa, como estudante e depois em Lisboa e Moçambique, já na vida militar. De vez em quando, volto a Macieira para recordar estas e outras memórias que aquele recanto do planeta Terra deixou gravadas no meu cérebro!