Subir ao monte da Franqueira e comer uma fatia de melancia era, na minha infância, o maior dos sonhos e só tinha hipótese de acontecer uma vez por ano, no segundo domingo de Agosto. Nem por sombras me passaria pela cabeça que voltaria de novo, ao fim de tantos anos, às encostas do monte da Franqueira, quando encetei esta procura pelos meus antepassados.
Já foi uma surpresa ter descoberto que o pai da minha mãe viveu em Santa Eulália de Rio Covo, embora não tendo lá nascido, nem de lá serem os seus pais. Mas maior surpresa foi descobrir que foi na encosta desse monte que povoa ainda as minhas recordações de infância, na freguesia de Milhazes, que nasceu a mulher que lhe deu a vida. Mas, como em todas as histórias, há um princípio por onde se deve começar. E esse princípio foi um casamento.
E foi no lugar da Malhadoura dessa ensolarada freguesia que do alto do monte fita a Póvoa e o seu mar que, no verão de 1816, António José de Sousa decidiu dar o nó com Antónia Maria, já viúva de um primeiro casamento, criando uma família no seio da qual, cerca de vinte meses depois, viria a nascer uma menina que foi baptizada com o nome de Anna. E além do seu nome de baptismo, nome cristão como lhe chamavam, recebeu também o apelido de Martins. A razão porque este lhe foi atribuído ficará, para todo o sempre, perdida na névoa dos tempos, uma vez que nem o seu pai, nem a mãe e nem tão pouco os seus avós, o usavam.
Desde o dia 23 de Dezembro de 1817, até ao início do ano de 1853, data em que vamos encontrá-la a viver no lugar do Portelo da freguesia de S.Bento da Várzea, nada se sabe do que foi a sua vida. E foi nesta data, já quase no limite do seu período fértil que esta mulher deu à luz o seu único filho. Muito longe da casa dos seus pais e sem um homem que com ela, perante a sociedade, assumisse a paternidade da criança. Vida difícil tinham as mulheres nesse tempo em que a lavoura era o único meio de subsistência das famílias e o primeiro filho varão herdava tudo que os pais deixavam, condenando as irmãs, quando as havia, a uma vida de miséria ou subserviência. Não é de admirar, portanto, que muitas delas partissem à aventura e acabassem com um filho "natural" nos braços e sem um pai que o reconhecesse.
Que motivos teriam levado a minha trisavó Anna de Milhazes para S.Bento da Várzea, estou eu muito longe de adivinhar. Talvez em busca de melhores condições de vida, talvez como criada de servir de alguma grande casa de lavoura que lhe garantisse maior segurança ou, quem sabe, apaixonada por algum rapaz de olhos bonitos que a fez segui-lo até lá. Para o que interessa da minha história, foi aí que deu à luz um rapaz que viria a ser o meu bisavô, João José, de seu nome.
Seguindo o mesmo destino errante da sua mãe, não foi nesta freguesia, mas sim na vizinha de de Santa Eulália que ele viria a encontrar a mulher para se casar, na verdade uma menina ainda, pois tinha apenas metade da sua idade, de quem viria a nascer o meu avô António. Se eu conhecesse a história do que se passou entre eles, talvez pudesse escrever um belo romance. Assim, como não sei, apenas vos posso contar que o seu primeiro filho, a quem puseram o nome de Davide, nasceu três ou quatro meses antes do casamento e adivinho que foi o abade da freguesia que obrigou o pai a prometer que se casaria com a mãe do bebé, para aceitar baptizá-lo. Mas essa é outra história que já aqui foi contada.



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