2024-01-23

No ano de 1954!

Este ano foi marcante na história da nossa família. O patrono da família que era jornaleiro na agricultura, já tinha corrido seca e meca para arranjar um melhor emprego e melhores rendimentos para sustentar a família que não cessava de aumentar. Os últimos trabalhos na agricultura, tanto quanto me consigo lembrar, foram para a Quinta do Mendes ou a Casa do Júlio, de Gueral. Depois disso, conseguiu encontrar o padrinho certo para o recomendar ao patrão da Chenop - mais tarde EDP - e disse adeus à agricultura.

Bem, adeus não disse, pois foi para a Chenop tratar das terras e jardins do Sr. Paiva, o grande chefe das electricidades, nesse tempo. Mas não tinha que andar sempre de chapéu na mão - embora ele fosse bom nisso - a pedir trabalho aos lavradores de Macieira, Gueral, Chorente e Courel e aceitar os trabalhos mais duros, como podar ou sulfatar videiras. No Outono de 1954, rumou a Vila do Conde e por lá ficou até ao dia da reforma.

De Gueral era o seu pai e a sua mãe e foi nessa freguesia que passou os primeiros anos da sua vida. Frequentou a Escola Primária dos 7 aos 8 anos e depois foi "vendido" como escravo para a Casa do Loureiro para desempenhar as funções de «rapaz do gado». Era um tempo em que não havia ainda alfaias agrícolas motorizadas e a força dos animais era tudo o que havia à disposição. Se era preciso um carro para ir ao campo levar ou buscar qualquer coisa, atrelava-se uma junta de vacas, ou de bois, conforme a força de que se precisava e o resto dos animais era levado para o pasto. Era esse o trabalho do meu progenitor, tomar conta do gado para que se mantivesse no lugar escolhido e não invadissem as hortas ou estragassem sementeiras. Ás vezes era preciso correr atrás de uma toura mais atrevida e assentar-lhe umas pauladas nos quartos-traseiros ara a meter na ordem.

Comecei esta publicação com estes pormenores para falar de um acontecimento triste de que eu tomei conhecimento, ha alguns dias, a morte do Arnaldo do Júlio que era companheiro de trabalhos do meu pai, quando era na Casa do Júlio que arranjava trabalho. Penso que era o mais velho, senão o único, filho daquela família. O "Naurdo" (assim se pronunciava o seu nome, nasceu em 1932, fez 20 anos quando eu tinha 8. E veio a falecer em casa da sua filha Cândida, em Julho de 2022, na freguesia de Minhotães.

Quis o destino que o Naurdo se viesse a casar com a Rosa do Capela, sobrinha do meu pai que morava na casa em frente, do outro lado da estrada. Foi um namoro entre vizinhos, coisa nada fora do vulgar. A Rosa era neta do meu avô Joaquim (que não consta dos livros, mas nós sabemos ser assim, o tal que tinha uma ferramenta que nunca precisava de ir ao ferreiro para aguçar.

A Rosa teve dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Ele mora na casa dos seus avós e ela casou em Minhotães e para lá foi viver. A Rosa acabou por seguir a filha, pois se sentia mal tratada pelo filho e pela nora que ficaram a ocupar a casa dos seus antepassados, Já os pais do avô Joaquim ali moravam nos idos do Século XIX. Foi lá que fui encontrá-la, há já alguns anos, quando decidi procurá-la e dar-me a conhecer como seu primos direito.

Há cerca de 30 anos, a Rosa comprou o talhão do cemitério, onde fora sepultado o seu pai e meu tio, António. No ano passado teve que lá ir sepultar o Arnaldo, seu marido, que sofria, há alguns anos de surdez, agravada por um certo grau de Alzheimer, que lhe tornou difíceis os últimos anos. Agora, descansa em paz e não dá trabalho a ninguém.

Passei por Gueral e lá fui espreitar o sepulcro, onde puseram uma placa com os seus dados biométricos. Nascido em 1932, falecido em 2022, com 90 anos certinhos. Paz à sua alma !!!

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Ana Canana!