Ontem foi o meu dia de passar pelo cemitério e recordar os parentes já falecidos. Quase toda a gente vai no dia 1 que é o dia de Todos os Santos, eu fui no dia 2 que é o dia dos Fiéis Defuntos, para mim o dia certo. Outra coisa, quase todos visitam a campa dos pais tios e irmãos, eu dediquei a minha visita aos avós e bisavós que estão lá para trás esquecidos no tempo.
A olhar para a campa do meu avô paterno, deixei o pensamento voar até ao longínquo ano de 1895, estávamos no princípio do mês de Junho com a natureza florida e as searas a ondular ao vento. A noiva era uma jovem cheia de sonhos que ainda não tinha completado 20 anos de idade. O noivo, mais velho 12 anos que ela, sabe Deus e mais ninguém o que o terá levado a escolher noiva tão jovem. Por vezes, havia gravideses inesperadas que aconselhavam o casamento para fugir à crítica do mundo, mas parece não ter sido o caso uma vez que daquele casamento nunca nasceu filho algum.
Corria o mês de Maio de 1909 e as relações entre os protagonistas desta história estavam cada vez mais azedas. Já com 46 anos de idade e desesperado com a ausência de descendência, o marido refugiou-se no álcool para esconder a mágoa. E com isso começaram os maus tratos em casa. Pela cabeça da mulher corriam outros pensamentos, e se a culpa de não engravidar fosse dele e não dela? Muitos dias tinham passado ouvindo acusações e muitas noites mal dormidas levaram-na a tomar uma decisão drástica. Tinha que comprovar a sua esterilidade e só havia uma maneira de o fazer.
Havia uma casa de lavoura, onde costumava trabalhar como jornaleira que tinha um filho, alguns anos mais novo que ela, que lhe costumava arrastar a asa e sabia do mau ambiente lá em casa. Pareceu-lhe ter encontrado a solução para o seu problema, era só deixar-se ir na conversa do jovem lavrador e ver o que acontecia. Não demorou muito que se visse grávida e foi contar a novidade ao marido. Não o posso saber com certeza, mas adivinho que foi mais uma grande bebedeira que ele apanhou para comemorar o acontecimento. Poucos meses depois, nascia uma menina de olhos azuis que foi a Glória (assim, com letra maiúscula, pois foi o nome com que a baptizaram) daquela casa, dali em diante.
O romance entre os dois amantes continuou, porque dois anos depois nasceu outro pimpolho, desta vez do sexo masculino, a quem puseram o nome de António, registado com o apelido do marido estéril que se chamava Silva, que veio a ser o meu pai e me transmitiu também o apelido dum avô que não era o meu. Coisas da vida.
Ao olhar para a campa do meu avô biológico passaram-me pela cabeça todos os detalhes de um passado que ninguém conhece, mas que se pode adivinhar pelos registos paroquiais deixados para trás. A minha bisavó Augusta Maria foi exposta na Roda da cidade de Braga, em 15 de Abril do ano de 1854. Quando chegou a idade de poder trabalhar, imagino que logo que completou 10 anos de idade, foi entregue pela Roda à família de João Faria, residente no lugar da Torre, da freguesia de Chorente, para com o suor do seu rosto pagar a sua sustentação. A Roda, naquele tempo, recebia tantas crianças que, o mais rápido possível, tinha que libertar-se de umas para receber as outras. Nada que não se compreenda.
Passaram-se uns anos e ainda antes de chegar à maioridade aparecu grávida. Quem era o pai? Nunca se soube. Podia ser o lavrador, em casa de quem vivia, um seu filho, ou outro homem qualquer que se aproveitou da sua juventude para a levar ao engano. Ou, em última análise, alguma paixoneta que tomou conta do seu coração e a levou a perder a cabeça. É difícil regressar ao ano de 1875 e encontrar testemunhas do que se passou com a minha bisavó Augusta Maria.
No dia 15 de Outubro de 1875, nove meses depois daquele romance de inverno, nascia uma menina que foi baptisada na freguesia de Gueral, a quem puseram o nome de Ana Maria (o mesmo da sua madrinha) e o apelido de Oliveira. Ainda hoje me pergunto - e não encontro a resposta - o porquê deste apelido. Onde foi a Augusta Maria desencantar esse apelido? Seria o verdadeiro apelido do pai da criança que ela quis preservar para o futuro da sua filha?
No cemitério de Gueral que abandonei após esta revoada de pensamentos que me atravessaram a mente, repousam no sono eterno o meu avô verdadeiro, de quem desconheço o apelido, aquele que me deu o apelido de Silva, e a Augusta Maria, mãe da minha avó Ana Que descansem em paz e Deus lhe tenha perdoado os seus pecados. Se no outro mundo as famílias se juntarem lá estarei junto deles, quando chegar a minha vez de entrar nessa dimensão !!!

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