2024-01-21

Pensamentos vagabundos!


No mês de Janeiro de 1890 houve um encontro entre um homem e uma mulher, ele de 62 anos de idade e ela de 37, que resultou no nascimento de um indivíduo do sexo feminino (como os padres gostavam de escrever nos seus assentos de baptismo) que viria a receber o nome de Maria, cerca de nove meses mais tarde, mais precisamente no dia 7 de Outubro.

Não falando na diferença de idades que já me dá muito que pensar, a circunstância de um deles morar em Pedra Furada e o outro em Barqueiros faz o meu pensamento vagabundear por uma série de possibilidades que não tenho, agora passados tantos anos, hipótese alguma de confirmar.

As gentes de Barqueiros viviam, como vivem ainda hoje em dia, muito mais em função da Póvoa, de que ficam mais próximos, que de Barcelos, aonde se deslocavam apenas para os actos oficiais obrigatórios, na Câmara Municipal, no Registo Civil ou nos tribunais. A feira semanal das quintas-feiras, em Barcelos, uma das mais concorridas no Minho, tem já uma tradição de muitos anos. Nela se juntam os lavradores de todas as freguesias do concelho para vender aquilo que produzem nas suas terras e comprar o que lhes falta. E pode muito bem ter sido ela a motivar o encontro mencionado no primeiro parágrafo deste texto.

Isto que acabo de descrever é o que nos levam a crer os documentos existentes onde foi registado o casamento dos dois e o nascimento do fruto desse encontro. E não estou a falar na feira de Barcelos que isso foi uma mera possibilidade introduzida por mim para dar cor ao meu relato. Mas, há sempre um mas a atrapalhar a história, e se não tivesse acontecido desta maneira?

Há uma infinidade de outras possibilidades. O homem de Barqueiros tinha ficado viúvo recentemente, coisa que não lhe agradava nem um bocadinho. Dois factores levaram-no a procurar uma mulher para lhe fazer companhia. O primeiro deles e que reputo de mais importante, a necessidade de não se sentir só, pois a solidão mata e ninguém gosta de morrer, se o puder evitar. O segundo, um pouco mais prosaico talvez, é que a idade já lhe pesava e o pequeno negócio de lavoura de que tirava o seu sustento era demais para uma pessoa só. Se somarmos a isto a falta de habilidade para as lides domésticas, temos reunidas todas as condições para achar lógica a sua decisão.

Primeira grande dificuldade, não é fácil a um homem dessa idade encontrar mulher que esteja disposta a partilhar a sua vida com um velhote a caminho do cemitério, em passo acelerado. A menos que encontre uma viúva de idade aproximada da sua ou uma mulher mais nova em situação desesperada que aceite o casamento como uma tábua de salvação que resolva as suas dificuldades.

E é aqui que os meus pensamentos se tornam, de facto, vagabundos ao mais alto nível. Imaginemos que o encontro não aconteceu em Janeiro, mas no início do verão, quando a barriguinha da grávida já não deixava esconder de ninguém o seu estado. Ah, tenho que acrescentar, aqui, que esta grávida era já mãe solteira de um rapagão de dez anos de idade. E estes dois factos conjugados seriam o trunfo perfeito que o viúvo precisava para ver a sua proposta de casamento ser aceite sem hesitação.

Tenha sido na feira de Barcelos, ou noutro lado qualquer, o facto é que ele tomou conhecimento da existência daquela mulher e, quer tenha sido em Janeiro ou em Junho, grávida ou por engravidar, levou-a de Pedra Furada para Barqueiros, casou com ela e deu origem à família de que eu descendo.

Sem comentários:

Ana Canana!